O comediante Léo Lins manifestou-se pela primeira vez depois de ser inocentado na ação que, anteriormente, o havia sentenciado a mais de oito anos de prisão. Em depoimento exclusivo ao canal BacciNotícias nessa segunda-feira (23), o artista preservou o sarcasmo característico de seu estilo, disparando contra o que denomina de patrulha ideológica e falsidade no cenário social.
A absolvição foi selada por dois votos contra um, configuração que abre margem para que a Promotoria conteste o veredito. Ao comentar a recepção da notícia vinda da Corte, Lins não perdeu a chance de alfinetar seus opositores. “Recebi a notícia da absolvição da mesma forma que aqueles que não toleram ideias divergentes receberam a da condenação, com muita alegria”, pontuou.
Mantendo o espírito debochado, ele revelou que o otimismo o acompanhou durante todo o processo e que encarou o anúncio final com leveza. “Eu estava confiante na Justiça e inclusive fiz um chá revelação de sentença para saber ao vivo se era culpado ou inocente”, relatou.
Lins também analisou a polarização entre seus colegas de profissão. Enquanto um grupo de comediantes ergueu a bandeira da livre manifestação do pensamento, outros sustentaram que a comédia não deve mascarar a discriminação. O entrevistado vê incoerência nessa última postura: “Ver humoristas a favor da censura é o mesmo que ver uma vaca defendendo o açougue”, disparou. Sobre uma possível transformação em sua conduta no palco, ironizou: “A partir de agora, eu seguro o microfone na mão esquerda”.
Para o artista, o Brasil é um campo complexo, porém rico para quem vive da piada. “É ótimo ser humorista no Brasil, afinal hipocrisia e falso moralismo são terrenos férteis para piadas. Não precisamos de mais direitos, e sim de mais bom senso. Estamos atravessando a epidemia da ignorância”, desabafou, aproveitando para anunciar uma obra literária inédita focada em sátira e pensamento crítico.
Ele acredita que o êxito jurídico atual servirá de escudo para outros embates legais que ainda enfrenta. “Creio que sim. Essa decisão contribui para a formação de um precedente importante, cuja relevância vai além da minha carreira. Mais do que uma vitória pessoal, é um fôlego para a liberdade de expressão”, analisou.
A condenação revertida, datada de meados de 2025, impunha multas milionárias e indenizações por danos morais coletivos, baseada no entendimento da magistrada Bárbara de Lima Iseppi de que a comédia não isenta o dolo penal, utilizando o termo “racismo recreativo”.
Com o novo entendimento do Tribunal, tais sanções evaporaram. A vitória foi celebrada por figuras como Danilo Gentili, defensor ferrenho da causa. Entretanto, o desfecho definitivo ainda depende de uma eventual movimentação do Ministério Público nos tribunais superiores.