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Ricardo Nunes rebate CEO da Enel após fala sobre apagões e dispara: “Nem Jesus Cristo salva essa empresa”
Prefeito acusa concessionária de incompetência e diz que maioria das falhas não foi causada por queda de árvores; empresa contesta
24/02/2026 11h33 Atualizada há 6 meses
Por: Natália Raquel
Prefeito Ricardo Nunes. Foto: Jean Carniel/Estadão / Estadão

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), reagiu com dureza nesta segunda-feira (23) às declarações do CEO global da Enel, Flavio Cattaneo, que afirmou que nem “Jesus Cristo” conseguiria evitar apagões na região metropolitana devido às condições da arborização urbana. Em entrevista, Nunes classificou a fala como desrespeitosa e acusou a concessionária de energia de falhas graves na prestação do serviço.

“Nem Jesus Cristo salva essa Enel. Muita cara de pau. Um deboche. O nível de incompetência é tão grande que, somado à capacidade de mentiras, chega a assustar. Mais de 80% dos locais que ficaram sem energia não tiveram queda de árvores”, afirmou o prefeito.

A fala do CEO

A declaração do executivo ocorreu ao comentar os impactos das tempestades sobre a rede elétrica aérea em São Paulo. Segundo Cattaneo, a proximidade entre cabos e árvores tornaria inevitáveis interrupções no fornecimento durante eventos climáticos severos.

“Se esse tipo de arborização continuar, só alguém seria capaz de resolver  e não é um ser humano, é Jesus Cristo, porque não há como evitar apagões de outra forma”, disse.

Ele argumentou ainda que, em diversos pontos da capital, os cabos de energia estariam “dentro das árvores”, o que dificultaria a manutenção e tornaria o restabelecimento mais lento após vendavais. De acordo com o CEO, relatórios apresentados às autoridades indicariam melhora de 50% na qualidade do serviço prestado em São Paulo no último ano.

Troca de acusações

A prefeitura contesta essa avaliação. Segundo Nunes, a maior parte das interrupções recentes não teve relação direta com queda de árvores, o que, na visão da administração municipal, enfraquece o argumento apresentado pela concessionária.

Em nota, a Enel afirmou que as declarações do prefeito “não correspondem à realidade” e sustentou que mais de 90% das ocorrências de falta de luz no último evento climático foram causadas por fatores ambientais, como queda de árvores, galhos e contato da vegetação com a rede elétrica devido aos ventos intensos.

A troca de declarações ocorre em meio a uma série de apagões que atingiram a capital paulista e a região metropolitana nos últimos anos, especialmente após tempestades de grande intensidade.

Enel sob pressão regulatória

Desde o fim de 2024, a atuação da Enel no Brasil tem sido alvo de forte escrutínio público e regulatório. Apagões prolongados e dificuldades no restabelecimento da energia levaram a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a iniciar a análise de um processo de eventual caducidade da concessão em São Paulo.

O procedimento começou a ser discutido em novembro do ano passado, mas foi suspenso após pedido de vista do diretor Gentil Nogueira. A análise foi ampliada para incluir o grande apagão de dezembro, que deixou cerca de 4,4 milhões de consumidores sem energia.

A Aneel deve avaliar nesta terça-feira (24) um pedido de prorrogação de 60 dias para conclusão do voto sobre o caso. O diretor-geral da agência, Sandoval Feitosa, já se manifestou contra o adiamento e defendeu deliberação em caráter de urgência. A Enel, por sua vez, sustenta, com base em pareceres jurídicos, que seria ilegal incluir o apagão de dezembro no processo de caducidade.

Investimentos e laudos técnicos

No mesmo dia das declarações, a Enel anunciou um plano global de investimentos de 53 bilhões de euros entre 2026 e 2028, com foco em energias renováveis, principalmente na Europa e nos Estados Unidos. Para a América Latina, incluindo o Brasil, estão previstos 6,2 bilhões de euros, condicionados a um ambiente regulatório considerado previsível pela companhia.

A empresa também apresentou à Aneel resultados de um projeto-piloto que mapeou 770 mil árvores na área de concessão na Grande São Paulo. Segundo o levantamento, apenas 9 das 145 árvores que caíram durante o apagão de dezembro de 2025 apresentavam risco prévio identificado.

Laudo técnico contratado pela concessionária apontou que a principal causa da queda das árvores foi a força dos ventos, com fatores secundários, como presença de fungos, contribuindo para o tombamento.