Em 2 de março de 1996, um sábado, o Brasil parou diante da notícia da morte dos cinco integrantes dos Mamonas Assassinas. O jato que trazia a banda de Brasília caiu às 23h16 na Serra da Cantareira, em São Paulo, durante a aproximação para pouso em Guarulhos. A carreira durou nove meses. O impacto atravessa três décadas.
O grupo havia feito show no Estádio Mané Garrincha, no Distrito Federal, para cerca de 10 mil pessoas. Seguiria para Portugal, onde faria a primeira apresentação internacional. A viagem terminou antes da meia-noite. O Learjet 25D, prefixo PT-LSD, colidiu com a montanha após uma arremetida mal executada, segundo relatório das autoridades aeronáuticas.
A morte de Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Sérgio Reoli e Júlio Rasec encerrou a trajetória mais rápida do pop brasileiro. Em menos de um ano, cinco jovens de Guarulhos trocaram o anonimato pelo topo das paradas.
Antes do sucesso, a banda se chamava Utopia. Tocava rock inspirado nos anos 80 e circulava pelo circuito de bairro. Em 1994, gravou um disco independente que vendeu cerca de 100 cópias. O fracasso abriu espaço para a virada. O encontro com o produtor Rick Bonadio foi decisivo. Dono de um estúdio simples na Serra da Cantareira, ele ouviu duas músicas gravadas por Dinho para um churrasco: “Robocop Gay” e “Pelados em Santos”.
Eram versões escrachadas, com humor direto. Bonadio viu ali um caminho.A mudança exigiu ruptura. O nome Utopia caiu. Surgiu Mamonas Assassinas, sugestão de Samuel Reoli em reunião do grupo. A estética também mudou. No palco, figurinos de personagens e apresentações debochadas. O humor virou marca.
Com um EP em mãos, Bonadio levou o material a gravadoras. A EMI fechou contrato. O quinteto gravou o primeiro e único álbum em Los Angeles. Lançado em 23 de junho de 1995, vendeu 25 mil cópias em 12 horas e 1 milhão em 100 dias.
Em menos de um ano, superou 3 milhões de unidades, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Discos. Tornou-se o disco de estreia mais vendido da história do País. O cachê chegou a US$ 100 mil por show. A agenda previa até oito apresentações por semana.
A exposição foi imediata. Programas de TV disputavam a banda. Emissoras monitoravam a audiência quando os músicos entravam no estúdio. Houve resistência inicial de parte da crítica e da MTV. O público decidiu.
O acidente ocorreu na segunda tentativa de aproximação ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, pouco depois das 23h. Após arremeter procedimento padrão quando o pouso não é considerado seguro a tripulação deveria executar curva à direita para novo alinhamento. O jato fez curva à esquerda e atingiu a Serra da Cantareira. A colisão foi imediata e não deixou sobreviventes.
O Learjet 25D, prefixo PT-LSD, vinha de Brasília. A bordo estavam os cinco integrantes da banda, além de tripulantes e equipe técnica. O impacto abriu uma clareira na mata. Árvores foram cortadas como se tivessem sido atravessadas por lâmina. O cenário, descrito por socorristas como devastador, indicava a violência da queda.
No Aeroporto de Guarulhos, familiares aguardavam a chegada do grupo. A notícia da perda se espalhou ainda na madrugada. Em poucas horas, emissoras interromperam a programação. Repórteres foram deslocados para a serra. Helicópteros sobrevoaram a área ao amanhecer.
No domingo, o País acompanhou imagens do resgate e da comoção. O programa “Domingo Legal”, do SBT, registrou pico de 47 pontos de audiência. Jornais estamparam capas especiais. Rádios abriram espaço para as músicas da banda. O luto ganhou dimensão nacional.
Os velórios reuniram milhares de pessoas em São Paulo e Guarulhos. Fãs vestiam camisetas do grupo e cantavam sucessos em coro. A despedida misturou silêncio, choro e aplausos. A morte interrompia uma trajetória no auge, quando a banda acumulava recordes de venda e agenda lotada.
A tragédia também revelou falhas no isolamento da área do acidente. Houve relatos de curiosos que ultrapassaram o perímetro e recolheram pedaços da aeronave. A cena provocou indignação e reforçou o clima de perplexidade.
Naquela noite, o humor irreverente que dominava rádios e televisões deu lugar ao silêncio. O Brasil que ria das paródias acordou em luto. A data entrou para a memória coletiva como um divisor na história recente da música popular.
Três décadas depois, os Mamonas Assassinas seguem presentes no cotidiano musical do País. As canções acumulam cerca de 2 milhões de ouvintes mensais no Spotify e circulam em mais de 140 países, segundo a gestão da marca. O repertório, marcado por humor escrachado e refrões fáceis, resiste ao tempo e alcança novos públicos.
A permanência não se explica apenas pela nostalgia. As músicas continuam a tocar em festas, estádios e programas de TV. “Pelados em Santos” e “Vira-Vira” atravessam gerações porque combinam paródia, melodia simples e ritmo popular. O grupo misturava rock, forró, pagode e balada romântica sem preocupação com rótulos.
Parte do humor, porém, é lido hoje à luz de novos debates sociais. Piadas que passaram sem contestação nos anos 90 enfrentariam críticas na atualidade. A revisão não apaga o impacto cultural do grupo, mas insere a obra no contexto de seu tempo.
A memória também se mantém por meio de tributos e releituras. Covers como o Mamonas Replay reproduzem figurinos e coreografias em shows pelo País. Espetáculos teatrais e produções audiovisuais revisitam a trajetória do quinteto. Em Guarulhos, cidade de origem da banda, o nome dos músicos integra o imaginário local.
Pais que eram adolescentes em 1995 apresentam as músicas aos filhos. O repertório ganha nova camada afetiva. Para quem viveu a explosão do grupo, as canções evocam uma fase específica da cultura pop brasileira, marcada pela televisão aberta e pelo rádio como principais vitrines.O fenômeno nasceu sem estratégia de mercado. Dinho definiu o início como “gravar umas sacanagens” para um churrasco. A espontaneidade encontrou o momento certo e um público disposto a rir. O resultado foi uma carreira breve, intensa e interrompida no auge.
Trinta anos depois, o legado não se mede apenas em números. Ele se traduz na capacidade de ainda provocar memória, debate e canto coletivo. A trajetória foi curta. A marca, duradoura.