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30 anos sem Mamonas Assassinas: do humor improvisado ao sucesso relâmpago que terminou em tragédia
Em nove meses, banda saiu do anonimato ao topo das paradas e teve a trajetória interrompida por queda de avião na Serra da Cantareira, em 2 de março de 1996.
02/03/2026 11h46 Atualizada há 6 meses
Por: Natália Raquel
Foto: Divulgação

Em 2 de março de 1996, um sábado, o Brasil parou diante da notícia da morte dos cinco integrantes dos Mamonas Assassinas. O jato que trazia a banda de Brasília caiu às 23h16 na Serra da Cantareira, em São Paulo, durante a aproximação para pouso em Guarulhos. A carreira durou nove meses. O impacto atravessa três décadas.

O grupo havia feito show no Estádio Mané Garrincha, no Distrito Federal, para cerca de 10 mil pessoas. Seguiria para Portugal, onde faria a primeira apresentação internacional. A viagem terminou antes da meia-noite. O Learjet 25D, prefixo PT-LSD, colidiu com a montanha após uma arremetida mal executada, segundo relatório das autoridades aeronáuticas.

A morte de Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Sérgio Reoli e Júlio Rasec encerrou a trajetória mais rápida do pop brasileiro. Em menos de um ano, cinco jovens de Guarulhos trocaram o anonimato pelo topo das paradas.

Da Utopia à Mamonas Assassinas

Antes do sucesso, a banda se chamava Utopia. Tocava rock inspirado nos anos 80 e circulava pelo circuito de bairro. Em 1994, gravou um disco independente que vendeu cerca de 100 cópias. O fracasso abriu espaço para a virada. O encontro com o produtor Rick Bonadio foi decisivo. Dono de um estúdio simples na Serra da Cantareira, ele ouviu duas músicas gravadas por Dinho para um churrasco: “Robocop Gay” e “Pelados em Santos”.

                                               

Eram versões escrachadas, com humor direto. Bonadio viu ali um caminho.A mudança exigiu ruptura. O nome Utopia caiu. Surgiu Mamonas Assassinas, sugestão de Samuel Reoli em reunião do grupo. A estética também mudou. No palco, figurinos de personagens e apresentações debochadas. O humor virou marca.

Explosão nacional

Com um EP em mãos, Bonadio levou o material a gravadoras. A EMI fechou contrato. O quinteto gravou o primeiro e único álbum em Los Angeles. Lançado em 23 de junho de 1995, vendeu 25 mil cópias em 12 horas e 1 milhão em 100 dias.

Em menos de um ano, superou 3 milhões de unidades, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Discos. Tornou-se o disco de estreia mais vendido da história do País. O cachê chegou a US$ 100 mil por show. A agenda previa até oito apresentações por semana.

A exposição foi imediata. Programas de TV disputavam a banda. Emissoras monitoravam a audiência quando os músicos entravam no estúdio. Houve resistência inicial de parte da crítica e da MTV. O público decidiu.

A noite que mudou o País

O acidente ocorreu na segunda tentativa de aproximação ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, pouco depois das 23h. Após arremeter procedimento padrão quando o pouso não é considerado seguro  a tripulação deveria executar curva à direita para novo alinhamento. O jato fez curva à esquerda e atingiu a Serra da Cantareira. A colisão foi imediata e não deixou sobreviventes.

O Learjet 25D, prefixo PT-LSD, vinha de Brasília. A bordo estavam os cinco integrantes da banda, além de tripulantes e equipe técnica. O impacto abriu uma clareira na mata. Árvores foram cortadas como se tivessem sido atravessadas por lâmina. O cenário, descrito por socorristas como devastador, indicava a violência da queda.

Foto: Reprodução/Glob

 

 

No Aeroporto de Guarulhos, familiares aguardavam a chegada do grupo. A notícia da perda se espalhou ainda na madrugada. Em poucas horas, emissoras interromperam a programação. Repórteres foram deslocados para a serra. Helicópteros sobrevoaram a área ao amanhecer.

No domingo, o País acompanhou imagens do resgate e da comoção. O programa “Domingo Legal”, do SBT, registrou pico de 47 pontos de audiência. Jornais estamparam capas especiais. Rádios abriram espaço para as músicas da banda. O luto ganhou dimensão nacional.

Os velórios reuniram milhares de pessoas em São Paulo e Guarulhos. Fãs vestiam camisetas do grupo e cantavam sucessos em coro. A despedida misturou silêncio, choro e aplausos. A morte interrompia uma trajetória no auge, quando a banda acumulava recordes de venda e agenda lotada.

A tragédia também revelou falhas no isolamento da área do acidente. Houve relatos de curiosos que ultrapassaram o perímetro e recolheram pedaços da aeronave. A cena provocou indignação e reforçou o clima de perplexidade.

Naquela noite, o humor irreverente que dominava rádios e televisões deu lugar ao silêncio. O Brasil que ria das paródias acordou em luto. A data entrou para a memória coletiva como um divisor na história recente da música popular.

Legado que atravessa gerações

Três décadas depois, os Mamonas Assassinas seguem presentes no cotidiano musical do País. As canções acumulam cerca de 2 milhões de ouvintes mensais no Spotify e circulam em mais de 140 países, segundo a gestão da marca. O repertório, marcado por humor escrachado e refrões fáceis, resiste ao tempo e alcança novos públicos.

A permanência não se explica apenas pela nostalgia. As músicas continuam a tocar em festas, estádios e programas de TV. “Pelados em Santos” e “Vira-Vira” atravessam gerações porque combinam paródia, melodia simples e ritmo popular. O grupo misturava rock, forró, pagode e balada romântica sem preocupação com rótulos.

Parte do humor, porém, é lido hoje à luz de novos debates sociais. Piadas que passaram sem contestação nos anos 90 enfrentariam críticas na atualidade. A revisão não apaga o impacto cultural do grupo, mas insere a obra no contexto de seu tempo.

A memória também se mantém por meio de tributos e releituras. Covers como o Mamonas Replay reproduzem figurinos e coreografias em shows pelo País. Espetáculos teatrais e produções audiovisuais revisitam a trajetória do quinteto. Em Guarulhos, cidade de origem da banda, o nome dos músicos integra o imaginário local.

Pais que eram adolescentes em 1995 apresentam as músicas aos filhos. O repertório ganha nova camada afetiva. Para quem viveu a explosão do grupo, as canções evocam uma fase específica da cultura pop brasileira, marcada pela televisão aberta e pelo rádio como principais vitrines.O fenômeno nasceu sem estratégia de mercado. Dinho definiu o início como “gravar umas sacanagens” para um churrasco. A espontaneidade encontrou o momento certo e um público disposto a rir. O resultado foi uma carreira breve, intensa e interrompida no auge.

Trinta anos depois, o legado não se mede apenas em números. Ele se traduz na capacidade de ainda provocar memória, debate e canto coletivo. A trajetória foi curta. A marca, duradoura.