O último sábado (28) consolidou um novo e perigoso capítulo na rivalidade que opõe Washington, Tel Aviv e Teerã. Balanços preliminares indicam que a ofensiva com mísseis contra o Irã já vitimou mais de 700 pessoas, incluindo rumores sobre a morte do líder máximo do país, Ali Khamenei.
Diante da ebulição geopolítica, o líder americano, Donald Trump, foi enfático ao assegurar que “o Irã nunca terá uma arma nuclear”, consolidando uma diretriz de confronto direto.
Para mapear os desdobramentos dessa crise, Mariana Oreng, professora de Relações Internacionais na ESPM, explica ao BacciNotícias que, embora a conjuntura seja crítica, o risco de um embate nuclear imediato permanece em níveis reduzidos.
Na visão da especialista, a adoção de uma "ofensiva ativa" subverte os canais convencionais de diálogo internacional.
“A postura de ofensiva ativa altera a lógica tradicional da diplomacia porque desloca o eixo da negociação para a demonstração de força”, elucida Oreng ao veículo.
Historicamente, os EUA equilibravam a pressão militar com construção de coalizões e legitimidade institucional. Contudo, a prevalência de ataques e discursos de guerra empurra o sistema internacional de volta ao pragmatismo bruto da política de poder.
Ela recorda, ainda, uma barreira normativa: nos Estados Unidos, o Congresso detém a exclusividade para oficializar conflitos. “Se operações militares ocorrem sem respaldo claro, o debate sobre legitimidade interna e externa aumenta”, ressalta.
A promessa da Casa Branca de impedir o acesso iraniano a armas atômicas desenha um limite intransponível na região.
Conforme aponta Oreng, tal retórica serve como freio, mas carrega um efeito colateral: a radicalização de alas conservadoras em Teerã. “Pode reforçar a narrativa de que o país está cercado por inimigos”, pondera a professora.
Entretanto, o custo humanitário e ambiental de uma guerra nuclear é um desestímulo universal, mantendo a utilização dessas armas como último recurso.
Atualmente, nove nações compõem o clube das potências nucleares. Apesar disso, o acionamento desses dispositivos, mesmo os de menor alcance, desafia décadas de contenção.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, estabeleceu-se um bloqueio ético e estratégico. “Mesmo em conflitos intensos entre potências nucleares ou seus aliados, esse limite nunca foi ultrapassado”, recorda a especialista.
O prognóstico mais provável para o Oriente Médio é a ampliação de uma guerra convencional, pautada por tecnologia de alta precisão. O uso de ogivas táticas só ocorreria em situações de colapso total de um regime ou embate frontal entre grandes potências.
O unilateralismo de Washington pode catalisar o surgimento de alianças paralelas. Figuras como Vladimir Putin, presidente da Rússia, e Xi Jinping, presidente da China, buscam sedimentar redes de influência que ignorem a hegemonia americana.
Para Oreng, este cenário evoca o clima da Guerra Fria, acelerando a divisão do globo em blocos competitivos, ainda que não signifique uma guerra mundial iminente.
Outro ponto de preocupação é a defasagem regulatória. “Os instrumentos de guerra evoluem rapidamente, enquanto as regras e mecanismos de governança permanecem baseados em estruturas do século XX”, adverte a docente.
Um conflito nuclear geraria um efeito dominó catastrófico: paralisia de suprimentos globais, inflação descontrolada de insumos básicos e volatilidade financeira. Mesmo nações neutras ou distantes, como o Brasil, sentiriam o baque econômico devido à interconectividade dos mercados.
Por fim, embora órgãos como a ONU e o Tratado de Não Proliferação visem mitigar esses riscos, sua força esvazia-se sem o comprometimento das grandes potências. O perigo real reside hoje na mistura de instabilidade interna com tecnologias de destruição rápida, que podem transformar um erro de cálculo em uma tragédia de proporções épicas.