Alguns discos chegam acompanhados de uma expectativa que se constrói antes mesmo da primeira música tocar. Quando um artista decide mudar de cenário, buscar novas referências e anunciar uma espécie de reinvenção, o público já começa a imaginar o que vem pela frente. Foi exatamente esse o clima em torno de "Kiss all the time. Disco, occasionally.", quarto álbum de estúdio de Harry Styles.
Gravado entre Berlim e Londres, o disco surge depois de uma trajetória solo que consolidou Styles como um dos nomes mais populares do pop atual. Desde os tempos do grupo One Direction até seu último projeto, Harry’s house, que ganhou o Grammy de melhor álbum, o cantor vem construindo uma imagem que mistura carisma, senso estético e habilidade de dialogar com diferentes públicos. A escolha da capital alemã como parte do processo criativo não passa despercebida. A cidade carrega um histórico quando o assunto é reinvenção musical. Basta lembrar da temporada criativa que David Bowie viveu por lá.
"Aperture”, primeira faixa apresentada, dá pistas concretas do caminho escolhido: sintetizadores discretos e uma atmosfera que parece feita para uma pista de dança mais introspectiva, a fim de explorar com mais calma as emoções. No entanto, conforme o álbum avança, a sensação é de que a promessa inicial perde um pouco de força. Algumas faixas flertam com a inovação, como as dançantes "Season 2 weight loss" e "Are you listening yet?", mas não vão muito além. Em vários momentos, parece que o álbum prefere mais sugerir do que realmente mergulhar na profundidade que está buscando, como é o caso de "Pop" e "Carla's song", que lembra, insclusive, "As it was", maior hit de sua carreira. Mesmo assim, a produção é sofisticada, os arranjos são bem construídos e o cuidado com a estética sonora é visível, claramente vistos em "American girls", segundo single a ser lançado.
No fim das contas, "Kiss all the time. Disco, occasionally." funciona melhor como experiência sonora do que como reinvenção estética e artística. É um trabalho elegante, cheio de boas ideias e, ocasionalmente, inspirado. Só que, para um artista do tamanho de Harry Styles, não existe criatividade sem correr riscos. Não mais.