A turbulência envolvendo o Banco Master instaurou um jogo de empurra-empurra entre os Três Poderes na capital federal, deflagrando um caaso que não demonstra sinais de desinteresse. Ao longo das últimas três semanas, o Senado estabeleceu um clima de "mal-estar ainda sem precedentes" com a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, alimentado por um rol de queixas que tem como estopim o cerco investigativo ao Master. Esse atrito já se materializa em entraves na agenda legislativa.
A decisão do banqueiro Daniel Vorcaro de reformular sua defesa jurídica reforçou, nos bastidores de Brasília, a suspeita de uma possível colaboração premiada, elevando a temperatura entre os congressistas. Na visão de deputados e senadores, o foco de um eventual acordo com a Polícia Federal ou o Ministério Público seria o centrão. Acredita-se que Vorcaro dificilmente "implicaria ministros do STF", caso possuísse revelações, visto que o tribunal é a instância onde o processo tramita.
Embora o Parlamento tente projetar uma imagem de normalidade, a pressão das apurações é palpável. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, encontra obstáculos para pacificar a Casa, onde o debate sobre o Master ganha corpo e ameaça atingir figuras políticas e seus aliados próximos.
Alcolumbre já sinalizou que "não instalará CPI para investigar o Master", evitando convocar sessões conjuntas que poderiam inflamar os ânimos dos parlamentares. Ele chegou a tentar dissuadir senadores de comissões ativas de prosseguirem com a ofensiva contra a instituição financeira, mas não obteve êxito.
Para a classe política, a digital de Lula está por trás da atuação da PF, e Alcolumbre compartilha dessa frustração. Existe uma tese de que o presidente possui "gerência sobre os caminhos da polícia", acusação prontamente rebatida pelo governo, que argumenta que o escândalo está, inclusive, "prejudicando sua popularidade e pode atingir o PT da Bahia".
A tensão com o Palácio do Planalto piorou após Lula comentar, em diálogo com o UOL, sobre a necessidade de fiscalizar os aportes do Master vindos de institutos de previdência fluminenses e amapaenses, uma declaração que antecedeu em apenas 24 horas uma investida policial no Amapá. Vale notar que o estado é gerido por Clécio Luís, aliado de Alcolumbre. Como represália, o senador travou o projeto do Redata, impondo uma das "mais duras derrotas do governo Lula 3".
Buscando conter danos e salvar pautas prioritárias, como a PEC da Segurança Pública, Lula buscou contato com Alcolumbre em duas ocasiões. O senador, contudo, tem se queixado da articulação política governista e mantém uma relação desgastada com Jaques Wagner. Outro ponto de atrito é a postura de Fabiano Contarato na CPI do Crime Organizado; o senador petista, por sua formação como delegado, mantém uma "atuação independente" que ignora apelos para suavizar as investigações.
O primeiro telefonema entre o presidente e o senador ocorreu pouco antes de Alcolumbre decidir manter o escrutínio sobre a quebra de sigilo de "Luis Cláudio, o Lulinha", filho do mandatário, frustrando as expectativas do Planalto. Na ligação seguinte, Alcolumbre elevou o tom, sugerindo que a análise de Jorge Messias para o Supremo poderia ser postergada para depois do pleito eleitoral.
Enquanto auxiliares de Lula minimizam os vazamentos da PF como algo "de difícil controle", o governo tenta costurar uma saída política para Rodrigo Pacheco e prepara uma lista de indicações para agências reguladoras na tentativa de reaproximação.
Embora rumores de uma reunião presencial tenham ganhado força recentemente, Alcolumbre joga com o tempo. Para ele, manter a proximidade com Lula é uma estratégia para "conter danos", especialmente se ele crê na influência presidencial sobre a PF e visando o suporte petista nas eleições locais no Amapá.
O fato é que Lula necessita de um pacto com Alcolumbre para superar este "inferno astral". Sem esse entendimento, o Planalto corre o risco de paralisia no Senado ou de sofrer revesses sistemáticos, especialmente diante do "terremoto que ainda pode vir com o Master".