Cada vez mais presente nas conversas do dia a dia, a saúde mental ainda enfrenta barreiras importantes quando o assunto é buscar ajuda profissional. Apesar dos avanços, o preconceito em torno da terapia persiste — e é justamente nesse cenário que relatos de figuras públicas têm contribuído para normalizar o tema.
Celebridades brasileiras como Anitta, Whindersson Nunes, Gisele Bündchen, Bruna Marquezine e Emicida, já falaram abertamente sobre a importância da terapia em suas vidas — seja para lidar com crises, ansiedade, depressão ou simplesmente para manter o equilíbrio emocional.
Para a psicóloga Dra. Joana d’Arc Sakai, esse movimento é fundamental para reduzir o estigma. “O preconceito é histórico. O sofrimento psíquico sempre foi associado à fraqueza, à incapacidade e até à loucura. Ainda existe uma ideia de que a pessoa precisa dar conta de tudo sozinha, como se isso fosse sinal de força”, explica.
Pressão por autossuficiência ainda afasta pessoas da terapia
Segundo a especialista, a cultura atual, marcada pela pressa e pela necessidade de exibição constante, reforça a ideia de autossuficiência. “Vivemos em uma lógica em que parar para se escutar parece perda de tempo, quando, na verdade, a terapia propõe exatamente isso: um encontro consigo mesmo”, afirma.
Ela destaca, ainda, que muitas pessoas evitam a terapia por medo do autoconhecimento. “Entrar em contato com questões internas, pode mobilizar defesas, como a negação. Existe também o receio do julgamento: “E se me acharem fraco?”, pontua.
“Dar conta de tudo” não significa estar bem
Um dos principais alertas feitos pela psicóloga é sobre a falsa sensação de controle. Pessoas que aparentemente equilibram carreira, família e vida social podem estar enfrentando sofrimento silencioso.
“Funcionar como uma ‘usina’, dando conta de tudo, muitas vezes significa passar por cima de si mesmo”, explica. Entre os sinais de alerta, estão cansaço constante, irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono e apetite, sensação de vazio e até sintomas físicos, como problemas de pele, dores recorrentes e questões gastrointestinais.
Terapia vai além de momentos de crise
Ao contrário do que muitos pensam, a terapia não é indicada apenas para situações extremas. “O processo psicoterapêutico também é preventivo. Ele fortalece a estrutura emocional e amplia os recursos internos para lidar com os desafios da vida”, afirma a especialista.
Na prática, isso significa aprender a reconhecer emoções antes que elas se tornem sintomas mais intensos. “A terapia ajuda a desenvolver tolerância à frustração e capacidade de enfrentamento. Saúde emocional não é ausência de problemas, mas a capacidade de lidar com eles”, completa, citando o pensamento do psicanalista Donald Winnicott.
Impactos da saúde mental vão além da mente
Outro ponto importante destacado por Dra. Joana é que a saúde mental impacta diretamente todas as áreas da vida. No trabalho, pode haver queda de produtividade e dificuldade nos relacionamentos. No corpo, o sofrimento emocional pode se manifestar em sintomas físicos.
“A mente e o corpo não funcionam separados. Muitas vezes, o corpo expressa aquilo que não pôde ser elaborado emocionalmente. É o famoso “o corpo fala”, explica.
O primeiro passo ainda é o mais difícil
Para quem nunca fez terapia, iniciar o processo pode gerar insegurança. “É sair da zona de conforto e encarar o desconhecido. Isso naturalmente causa ansiedade”, afirma.
Nas primeiras sessões, o paciente passa por um processo de escuta profunda, em que o psicólogo busca compreender sua história, suas queixas e a forma como ele se relaciona consigo mesmo e com o mundo. “É comum sentir alívio por ser ouvido sem julgamentos, mas também pode haver estranhamento. Tudo isso faz parte do processo”, reforça.
Quebrando o silêncio
Ao compartilhar suas experiências, famosos ajudam a abrir espaço para conversas mais honestas sobre saúde mental — e mostram que buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade emocional.
“Não sofra em silêncio. Psicoterapia é qualidade de vida. Reconhecer conflitos internos e cuidar de si é um ato de coragem”, conclui a especialista.