Notícias Entenda o caso
Crimes além do Master: PF analisa novas frentes de investigação
Segundo a Polícia Federal (PF), a empresa financeira funcionava como o epicentro de uma rede criminosa estruturada através de centenas de veículos de investimento
05/05/2026 10h12
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos Fonte: Metrópoles
Daniel Vorcaro - Reprodução: Claudio Gatti/VEJA

Passados cinco meses desde o início da Operação Compliance Zero, a apuração sobre o maior desvio bancário já registrado no país expandiu-se para frentes investigativas paralelas. O foco das autoridades agora recai sobre a compreensão dos denominados “filhotes” do Banco Master.

Segundo a Polícia Federal (PF), a empresa financeira funcionava como o epicentro de uma rede criminosa estruturada através de centenas de veículos de investimento. Daniel Vorcaro, proprietário da instituição, teria articulado alianças políticas para conferir sustentação à engrenagem ilícita.

As etapas da ofensiva policial culminaram na interrupção das atividades do Master e de corporações coligadas. O curso das apurações provocou a prisão de Vorcaro (ocorridos em novembro e março) e, em um desdobramento recente, a detenção de Paulo Henrique Costa, que presidia o Banco  Regional de Brasília (BRB).

Com o avançar das investigações, novos braços do esquema emergiram. No primeiro mês deste ano, a PF instaurou um inquérito para examinar o suposto recrutamento de influenciadores digitais. A missão desse grupo seria blindar a imagem do Master e realizar ofensivas digitais contra o Banco Central (BC) após a intervenção na financeira.

Dados da Febraban indicam que, desde o final do ano passado, notou-se uma quantidade fora do comum de postagens nas redes sociais ligadas ao episódio. Sob sigilo, a Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor) comanda os trabalhos.

De acordo com o relatório policial: “As novas evidências apresentadas agora a esta Suprema Corte comprovam que Felipe Mourão (Sicário) faz a ponte entre os desejos de Daniel Vorcaro de influenciar a opinião pública e influenciadores contratados pela organização criminosa”.

Uma outra vertente apura o suborno de funcionários do Banco Central, que teriam oferecido uma “consultoria informal” em troca de benefícios escusos pagos por Vorcaro. Além da esfera policial, o próprio BC abriu sindicância interna e afastou os suspeitos.

A PF também verifica irregularidades em empréstimos consignados destinados a aposentados do INSS. Suspeita-se que o banco efetuava transações sem o consentimento dos correntistas e distribuía cartões (Credcesta) com critérios de adesão excessivamente brandos.

Para o jurista, Luís Felipe Chaves Machado, processos de alta complexidade costumam evoluir em gradações, onde a coleta de provas abre caminho para novas frentes.

“É como um quebra-cabeça: algumas peças revelam uma imagem inicial, mas essa imagem, por sua vez, aponta para outras conexões que precisam ser investigadas. O objetivo é reconstruir toda a cadeia do esquema, desde sua origem até seus beneficiários finais, identificando os prejuízos, os prejudicados, os favorecidos, os eventuais agentes corruptos e os mecanismos usados para ocultar ou movimentar os valores”, explica o advogado.

Ele pontua que esses desdobramentos permitirão dimensionar o real vulto da fraude, individualizar as condutas, avaliar os danos e priorizar a retomada de bens ilícitos.

“Em investigações dessa natureza, tão importante quanto descobrir quem participou é entender como o dinheiro circulou, quem se beneficiou e quais estruturas formais ou informais foram utilizadas para dar aparência de legalidade aos recursos”, declara.

Já o advogado, Guilherme Alonso, observa que o combate a grupos criminosos requintados prova que o Estado pode se equiparar à sofisticação da criminalidade moderna.

“Ainda que seja difícil para a polícia acompanhar o desenvolvimento da atividade criminosa mais elaborada, as vitórias renovam na sociedade ao menos algum sentimento de Justiça”, pondera.

Alonso, contudo, demonstra cautela sobre o excesso de derivações do processo: “A existência desses ‘filhotes’ do caso Master deve, contudo, ser vista com cautela. Já passamos por isso antes, com as dezenas de fases da Operação Lava Jato e o seu posterior comprometimento, com declarações de nulidades”.

Cronologia da Ofensiva

O Grupo de Coação

Detido desde o início de março, Vorcaro tenta alinhar uma colaboração premiada com a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR).

Somando-se às fraudes no sistema bancário, a PF investiga o uso de uma “milícia privada” pelo empresário para coagir oponentes e autoridades. O ministro André Mendonça, relator no STF, destaca que a PF caracteriza o banqueiro como comandante de uma organização extremamente organizada.

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, seria um dos agentes desse braço armado. Ele faleceu em março após um incidente na carceragem da PF, onde estava detido desde a terceira fase. O grupo dedicava-se a vigiar, coletar dados e intimidar críticos, incluindo jornalistas e ex-colaboradores.

O especialista, Gustavo Scandelari, reforça que essas ramificações são vitais para elucidar a totalidade dos delitos.

“Isso que vai permitir às autoridades e aos investigadores o mapeamento total do dinheiro que foi empregado para os crimes e o mais importante toda a extensão da organização criminosa e todos os envolvidos”, conclui.