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“Três Graças”: a novela que voltou a pulsar
Entre feridas sociais e atuações arrebatadoras, a trama transformou dores cotidianas em retrato humano
15/05/2026 04h40 Atualizada há 3 meses
Por: Flávio Melo
Foto: Gshow

Existem novelas que parecem ocupar a rotina do público, atravessando a tela para morar nas rodas de conversas. Assim foi "Três Graças": uma obra que resgatou a força do clássico folhetim brasileiro, encontrando equilíbrio entre crítica social, emoção popular e narrativa sofisticada.

Desde os primeiros capítulos, a trama construiu uma São Paulo dura, desigual, mas profundamente humana. O grande acerto esteve na forma como as dores cotidianas transformaram-se em combustível dramático sem cair na armadilha da miséria romantizada.

No centro dessa engrenagem esteve Gerluce, interpretada por uma Sophie Charlotte em puro estado de graça. Uma mulher marcada pelas ausências, mas que soube reinventar seu caminho e segui-lo. Uma atuação poderosa, intensa, delicada e transmitida pelo olhar.

O texto de Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva merece destaque especial. Discutiu corrupção, desigualdade social, maternidade precoce, precarização da saúde e abandono afetivo, mas sem perder o afeto que alimenta as relações humanas. Nos diálogos havia ritmo, ironia e personalidade. Uma escrita que entendeu o conflito, mas sem perder a sedução.

Os antagonistas também incendiaram a narrativa. Murilo Benício e Grazi Massafera formaram uma dupla de vilões envolventes que devolveu ao horário nobre o prazer de odiá-los e amá-los na mesma medida. Arminda, especialmente, foi construída com camadas arrebatadoras: imponente, manipuladora, cruel, mas fascinante.

Mas talvez a maior qualidade de "Três Graças" esteve nos detalhes. A novela cresceu nos pequenos gestos, nas relações familiares e nos personagens secundários que jamais parecem decorativos. Dira Paes entregou uma Lígia profundamente humana. Já Alana Cabral surpreendeu ao dar autenticidade à juventude inquieta de Joélly.

A direção de Luiz Henrique Rios também merece aplausos. Do início ao fim, existiu um cuidado visual evidente em cada núcleo. As cenas nas comunidades tinham textura, cores vivas, movimento e calor íntimo; já nos ambientes mais luxuosos, frieza, paletas sombrias e distância emocional. Houve capítulos conduzidos com tensão cinematográfica, enquanto outros encontraram a beleza nas situações mais corriqueiras, como confidências à mesa durante o café da manhã.

As participações especiais e os núcleos paralelos ajudaram a ampliar ainda mais esse universo. O casal Loquinha, composto por Alanis Guillen e Gabriela Medvedovsky, ganhou vida própria fora das telas; o enredo criado em torno de Samira, magistralmente vivida por Fernanda Vasconcellos, abrilhantou a história; e o retorno de Crô (Marcelo Serrado) e Téo Pereira (Paulo Betti) deram um delicioso sabor de nostalgia. Um elenco completamente alinhado ao tom da obra, deixando o texto respirar.

No fim das contas, "Três Graças" falou sobre heranças invisíveis. Sobre mulheres reais. Sobre um país acostumado a endurecer para continuar existindo. Sobre uma humanidade crua e pulsante. Uma novela que despertou a sensação de estarmos diante de nós mesmos, de nossas histórias, de um autorretrato documental.