O chefe do Executivo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), comunicou aos interlocutores próximos sua intenção de submeter novamente o nome de Jorge Messias à apreciação do Senado Federal para a cadeira vacante no Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão ocorre mesmo após o revés sem precedentes sofrido pelo advogado-geral da União no plenário da Casa. Para Lula, o resultado não representou uma falha pessoal do indicado, mas sim um ataque político direcionado à gestão federal e à competência exclusiva do mandatário do país de nomear os magistrados da Suprema Corte.
Essa estratégia de insistência ganha força em meio ao tensionamento nas relações entre a Presidência da República e o comandante do Senado, Davi Alcolumbre. Embora o parlamentar negue qualquer movimento contrário, a cúpula do governo está convicta de que ele agiu nos bastidores para minar a aprovação. Auxiliares admitem que o líder do Senado dificilmente cederá às investidas do Planalto, o que transformará uma nova indicação em uma verdadeira medição de forças entre os poderes Executivo e Legislativo.
Logo após a votação negativa, o presidente cogitou alternativas para o posto, pressionado por alas do PT e por movimentos sociais que reivindicavam a escolha de uma mulher. Todavia, a ideia perdeu tração. Assessores alertaram Lula de que recuar agora chancelaria a vitória política do Senado. Além disso, argumentaram que qualquer nome feminino escolhido nesse contexto seria rotulado como um “plano B”, um rótulo politicamente desfavorável para a narrativa governista.
A percepção dominante entre os ministros de Estado é de que o presidente optou por encarar o impasse como uma disputa de relevância institucional, evitando passar a mensagem de que recuou diante das pressões do Congresso Nacional.
O distanciamento entre Lula e Alcolumbre ficou evidente na solenidade de posse do novo comandante do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques. Sentados lado a lado na mesa de honra, os dois evitaram o diálogo, limitando-se a um cumprimento meramente formal nos bastidores.
Para a base governista, Alcolumbre sinalizou que “vestiu o chapéu” do confronto relacionado ao chefe da AGU. O estopim do desconforto ocorreu durante o discurso do presidente da OAB, Beto Simonetti. Ao saudar Messias, a plateia e as autoridades iniciaram aplausos que duraram cerca de meio minuto. Alcolumbre permaneceu estático, sendo o único na mesa a não aplaudir, num gesto visto como uma demarcação clara de território político.
Apesar do cenário hostil, Messias mantém as esperanças. Questionado por interlocutores sobre o desfecho de sua carreira jurídica, o advogado-geral costuma responder que “Deus proverá”. O forte apoio recebido no TSE sinalizou ao Planalto que o AGU ainda goza de elevado prestígio no meio jurídico. Messias, que chegou a cogitar a renúncia do cargo, aceitou o conselho de Lula para não decidir nada “no calor do momento” e cumpre férias até o dia 25.
Mesmo com o revés no parlamento, Lula rechaçou mudanças imediatas na coordenação política. O presidente confidenciou a aliados que senadores descumpriram a palavra empenhada e que o líder do governo na Casa, Jaques Wagner (PT-BA), acabou sendo “traído” na articulação dos votos. O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, também segue garantido no posto, a despeito das contestações internas.
No entanto, o clamor por um enfrentamento direto contra o bloco do Centrão e a oposição cresce dentro do PT. O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) manifestou-se favoravelmente ao reenvio do nome de Messias:
"Eu defendo que o presidente reenvie, sim. O Senado só poderia barrar alguém por incapacidade técnica, e esse não é o caso do Jorge. O que houve foi uma conspiração do bolsonarismo com setores do Centrão para tentar impedir investigações da PF e afrontar o governo" pontuou Lindbergh.
A nova indicação funcionará como um teste para medir a disposição do Senado em esticar a corda com o Executivo, num período em que pautas cruciais, como a PEC da Segurança Pública, o Orçamento e projetos da agenda econômica, enfrentam resistência.
Apesar da crise na votação do STF, o ambiente político em Brasília sofreu uma inflexão devido aos problemas enfrentados pela oposição. Membros do governo avaliam que as suspeitas em torno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no caso Banco Master arrefeceram o ímpeto do Centrão em infligir novas derrotas ao Planalto.
Recentemente, reportagens revelaram diálogos do parlamentar fluminense com o banqueiro Daniel Vorcaro buscando repasses para a produção do longa-metragem "Dark Horse", que retrata a vida de Jair Bolsonaro. O episódio instalou uma crise interna no PL e acabou deslocando parte das atenções e do desgaste político para o núcleo da oposição.