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Em reunião reservada, Lula aconselhou Vorcaro a não vender Master ao BTG
A recomendação foi feita de forma direta durante uma audiência reservada na sede do Executivo nacional, realizada no dia 4 de dezembro de 2024
18/05/2026 12h55
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos
Lula e Daniel Vorcaro - Reprodução: Marcelo Camargo/Agência Brasil | Divulgação/Banco Master

O chefe do Executivo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), desencorajou Daniel Vorcaro a repassar o controle do Banco Master por um valor simbólico ao BTG Pactual, instituição liderada por André Esteves. A recomendação foi feita de forma direta durante uma audiência reservada na sede do Executivo nacional, realizada no dia 4 de dezembro de 2024.

Naquele período, a instituição financeira já enfrentava um cenário adverso. Novas revelações trazidas pelos jornalistas Fabio Serapião e Natália Portinari, do portal UOL, expuseram os detalhes dessa articulação embrionária idealizada por Vorcaro. As informações constam em um relatório apreendido pela Polícia Federal, que ainda não foi anexado aos autos da operação Compliance Zero sob a relatoria do ministro André Mendonça na Suprema Corte.

De acordo com a publicação, um registro eletrônico de 10 de abril de 2025 detalha os termos da transação pretendida com o BTG. Parte dessa engenharia financeira já havia sido antecipada pela newsletter Drive, do Poder360. Na oportunidade, foi revelado que o banqueiro já havia compartilhado com Lula o interesse do concorrente em absorver sua operação desde o encontro do final de 2024.

A Consulta ao Presidente e os Alvos de Lula

A audiência no Planalto serviu para que o empresário buscasse uma orientação junto ao mandatário do país:

“O BTG, de André Esteves, quer comprar meu banco por R$ 1. Eu não quero confusão. Devo vender ou seguir no mercado? Nós queremos reduzir a concentração bancária do Brasil, presidente”.

Após escutar o relato, Lula reagiu de forma veemente, utilizando termos de baixo calão para criticar a atuação de Roberto Campos Neto, que estava prestes a encerrar seu ciclo no comando do Banco Central. O presidente também direcionou restrições a André Esteves, principal acionista e controlador do BTG Pactual. O cerne da recomendação presidencial foi para que o Master resistisse e rejeitasse a oferta. O encontro contou com a participação de Gabriel Galípolo, que assumiria a instituição financeira no mês seguinte.

A presença de Galípolo e o tom das críticas a Campos Neto foram interpretados por Vorcaro como um aval governamental para dar continuidade ao Master.

Análises estatísticas apontam uma intensa movimentação institucional: foram contabilizadas 65 audiências entre executivos do Master e a diretoria do Banco Central desde 2019. Contudo, o fluxo se intensificou recentemente: foram 24 agendas ao longo de todo o mandato de seis anos de Campos Neto (2019-2024), contra 41 reuniões nos primeiros onze meses da gestão de Galípolo em 2025.

Discurso Antimonopólio e a Articulação de Mantega

No fechamento de 2024, o mercado já monitorava a forte exposição do Master devido à captação agressiva via emissão de papéis de renda fixa com taxas descoladas da média. Para se blindar, Vorcaro argumentava perante os integrantes do governo que sua meta era rivalizar com os grandes conglomerados e que as desconfianças do mercado eram reações à sua tentativa de pulverizar o setor. A narrativa obteve simpatia de Lula, que enxergava uma oportunidade de confrontar a hegemonia dos três principais bancos privados do país ao lado do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.

Além disso, Lula acumulava insatisfações com posicionamentos de André Esteves, que costumava tecer críticas à condução econômica do governo e acenar para uma alternância de poder em favor da oposição. Diante disso, o Planalto enxergou no Master um potencial aliado para fincar bandeira e expandir a influência de correntes progressistas no coração financeiro de São Paulo, na região da Faria Lima.

O agendamento dessa conversa foi costurado por intermédio de uma audiência oficial com Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, chefe do Gabinete Pessoal da Presidência. Embora o encontro tenha ocorrido em 4 de dezembro, o registro no sistema só foi formalizado semanas depois, apontando o ex-ministro Guido Mantega como um dos presentes, atuando na defesa dos interesses de Vorcaro na capital federal.

Na sala, Lula estava ladeado pelo chefe da Casa Civil, Rui Costa, além do próprio Galípolo, que na época gerenciava a área de Política Monetária e não possuía atribuições de fiscalização bancária. Completavam o grupo o ministro Alexandre Silveira (Minas e Energia) e Augusto Lima, então executivo-chefe do Master.

A interlocução contou com a influência política da Bahia, estado de origem do ministro Rui Costa e também com forte ligação com Augusto Lima, empresário com trânsito livre entre lideranças baianas.

Reações nos Bastidores e o Destino dos Ativos

Lima chegou a ser detido temporariamente nas investigações da Compliance Zero, mas obteve liberdade e não voltou a figurar como alvo prioritário da Polícia Federal. Ele foi o idealizador do mecanismo de empréstimos consignados Credcesta, ativo que impulsionou o balanço do Master e garantiu a ele uma fatia societária. Posteriormente, em julho de 2025, Lima desligou-se do grupo e assumiu o controle do Banco Voiter (rebatizado de Pleno), uma subsidiária da própria holding. A transferência foi avalizada pelo Banco Central na gestão de Galípolo, mesmo com indícios de irregularidades já em apuração.

Durante o debate sobre o oligopólio financeiro na reunião de 2024, Lula ponderou que a condução desse tema deveria ocorrer sob critérios estritamente técnicos pelo Banco Central. Ele recomendou a preservação da marca e pontuou que a autarquia mudaria de comando em breve, visto que Campos Neto encerrava seu ciclo em 31 de dezembro daquele ano sem ter sido notificado sobre o encontro secreto.

O desfecho da conversa trouxe otimismo ao banqueiro, que celebrou o resultado com sua companheira da época, Martha Graeff, via mensagens telefônicas obtidas pelos investigadores:

“Foi ótimo”, comemorou ele com sua então namorada, Martha Graeff, como mostram mensagens de um de seus celulares em posse da PF. “Ele chamou presidente do banco central que vai entrar” e “3 ministros”, diz Vorcaro. Martha reage com uma exclamação em formato de onomatopeia: “Wowwwwww”. E diz: “Tô louca pra saber de tudo”.

Apoiado na sinalização do Planalto, Vorcaro declinou do negócio com o BTG e firmou uma parceria societária com o BRB, banco estatal do Distrito Federal, em março de 2025. Todavia, o movimento enfrentou forte resistência dos operadores econômicos, culminando no veto definitivo imposto pelo Banco Central em setembro daquele ano.

A apuração jornalística indica que, diante do travamento do negócio com a instituição brasiliense, o empresário voltou a considerar a transferência para o BTG como uma saída de emergência.

“Irmão pelo amor de Deus. Não passe isso pra ninguém”, escreveu Vorcaro às 20h46 de 10 de abril de 2025, segundo os registros no seu celular e que foram divulgados pelo UOL. “Lógico irmão. Tá doido”, respondeu Augusto Lima logo em seguida.

Os diálogos revelam que o comando do Master já antevia o fracasso das tratativas com o banco público e ensaiava um retorno à proposta original apresentada a Lula, a alienação simbólica ao grupo de André Esteves, transação que acabou não se concretizando.