A advogada e criadora de conteúdo Deolane Bezerra, detida pelas autoridades nesta quinta-feira (21), exercia o papel de gestora financeira para uma das maiores organizações criminosas do país. Conforme os levantamentos conduzidos pelo Ministério Público e pela Polícia Civil paulista, ela colaborava ativamente ocultando a origem de capital ilícito ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Os agentes de segurança detalharam que as cifras oriundas do grupo criminoso entravam em contas bancárias vinculadas à criadora de conteúdo, misturando-se a faturamentos de suas demais áreas de atuação. Esse processo dificultava a fiscalização das movimentações financeiras antes que o montante regressasse aos cofres da facção. Para viabilizar o trânsito dos valores ocultos, a rede utilizava uma companhia de logística e transporte localizada em Presidente Venceslau, município do interior do estado.
Embora a apuração tenha constatado repasses e transações bancárias recorrentes, o volume financeiro total transferido da transportadora para a influenciadora digital ainda está sendo contabilizado pelos peritos. Por determinação judicial, Deolane teve ativos que somam R$ 27 milhões retidos eletronicamente.
De acordo com o delegado Edmar Caparroz, do 2º Distrito Policial de Presidente Venceslau, região que abriga unidades prisionais de segurança máxima e a sede da empresa de transportes envolvida, a projeção midiática e o patrimônio da advogada foram determinantes para sua escalação na engrenagem delituosa.
"Entendemos ao longo da investigação que a Deolane, até pelo poder econômico que ela adquiriu ao longo do tempo e pela influência, ela funcione como uma espécie de caixa do crime organizado", afirmou o delegado Edmar Caparroz.
A força-tarefa mapeou uma rede de transações eletrônicas ramificada por contas de CPFs e CNPJs variados. Essa engrenagem representa a fase de dissimulação da lavagem de dinheiro, cujo principal intuito é desvincular o dinheiro de sua procedência ilegal, frustrando os mecanismos de controle fiscal.
"O crime organizado deposita os valores nessa figura pública, esse dinheiro acaba se misturando com o dinheiro de outras atividades, e quando precisa esses recursos retornam para o crime organizado", acrescentou Caparroz.
A captura da advogada ocorreu em sua residência, num condomínio de alto padrão em Alphaville, Barueri. A ofensiva policial também emitiu ordens de prisão contra o principal líder da facção, Marcos Willians Herbas Camacho (Marcola), que já cumpre pena em regime fechado, além de seus entes familiares. Entre os detidos na investida estão Everton de Souza, o "Player", apontado como o articulador financeiro do grupo, e Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola, localizada em território espanhol.
| Investigados e Situação Legal |
| Deolane Bezerra |
| Marcos Willians (Marcola) |
| Everton de Souza ("Player") |
| Paloma Sanches Herbas Camacho |
Procurado pela imprensa, o defensor de Deolane, Luiz Imparato, informou que está avaliando as peças do inquérito para se posicionar. Bruno Ferullo, responsável pela representação jurídica de Marcola, declarou similarmente que analisa o teor das acusações. As equipes técnicas dos demais implicados não foram encontradas para declarações.
O estopim para o monitoramento de Deolane Bezerra na Operação Vérnix ocorreu com a interceptação de bilhetes e notas escritas à mão em uma ala carcerária de Presidente Venceslau, ainda em 2019. O cruzamento de dados indicou comunicações sobre uma "mulher da transportadora", a quem cabia o levantamento de dados domiciliares de servidores públicos para dar suporte a atentados planejados pela cúpula.
Posteriormente, em 2021, desdobramentos da Operação Lado a Lado culminaram na apreensão do smartphone de Ciro Cesar Lemos, figura-chave na coordenação do esquema. Os dados contidos no aparelho trouxeram à tona o esquema de lavagem via empresa de cargas e selaram o vínculo financeiro com a advogada.
Registros de imagem recuperados no celular mostravam comprovantes de depósitos destinados a contas de Deolane e do operador financeiro "Player".
"O vínculo dela com a transportadora foi o pontapé inicial para a investigação, mas com afastamento de sigilos bancário e fiscal, verificamos que ela mantém relação com outras vertentes do crime organizado", declarou o delegado Edmar Caparroz durante entrevista coletiva.
A engenharia investigativa cruzou o material apreendido nos últimos anos com relatórios detalhados de órgãos de controle financeiro sobre as contas empresariais e particulares de Deolane Bezerra. As provas indicam que a influenciadora atuava como destinatária final de remessas em espécie, operacionalizadas a partir do faturamento clandestino e sob ordens diretas dos líderes do comando.