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“A caixa do crime”: Deolane Bezerra abriu 35 empresas no mesmo endereço
Esses dados vieram a público na quinta-feira (21), durante um pronunciamento à imprensa sobre a Operação Vérnix
22/05/2026 11h41
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos
Reprodução: Leonardo Amaro/Metrópoles

A criadora de conteúdo digital Deolane Bezerra abriu 35 empresas utilizando um único endereço localizado em uma comunidade residencial de baixa renda em Martinópolis, no interior paulista, de acordo com dados fornecidos pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo. Esses dados vieram a público na quinta-feira (21), durante um pronunciamento à imprensa sobre a Operação Vérnix, ação que apura uma rede de ocultação de capitais vinculada à facção Primeiro Comando da Capital (PCC).

Demonstrando forte indignação com a situação, o promotor Lincoln Gakiya pontuou durante o encontro com os jornalistas:

“Eu acho inadmissível hoje que nós tenhamos, por exemplo, 35 empresas abertas no endereço de uma casa de projeto habitacional bem precário em Martinópolis”.

Segundo a autoridade, esse cenário deixa explícitas as brechas nos mecanismos de registro empresarial e na fiscalização de transações financeiras atípicas.

A força-tarefa, coordenada em conjunto pela Polícia Civil e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), culminou no cumprimento de seis mandados de custódia preventiva, no bloqueio de montantes que ultrapassam R$ 327 milhões, além do confisco de quatro propriedades imobiliárias e 17 automóveis importados pertencentes aos alvos da apuração.

Conforme o entendimento dos responsáveis pelo caso, a advogada operava como uma espécie de “caixa do crime organizado”, promovendo a fusão de capitais de origem ilícita com os faturamentos de seus negócios e com os lucros gerados por sua própria imagem na internet.

Ao detalhar essa dinâmica, um dos delegados que comanda os trabalhos explicou:

“Nós entendemos ao longo da investigação, in parceria com o Ministério Público, que a Deolane, até pelo poder econômico que ela adquiriu ao longo do tempo e pela sua influência, funciona como uma espécie de caixa do crime organizado”.

A autoridade policial complementou descrevendo o fluxo dessa engrenagem:

“O crime organizado deposita esses valores nessa pessoa, figura pública, e esse dinheiro acaba se misturando com o dinheiro de outras atividades. Quando precisam desses recursos, eles retornam para o crime organizado”.

O relatório final aponta que a engrenagem movimentou quantias astronômicas sem lastro legal comprobatório, valendo-se de firmas fantasmas, contas bancárias intermediárias de passagem e a compra de posses de alto padrão para camuflar o dinheiro oriundo do bando criminoso.

Fragmentos de papel em presídio deram início ao caso

O ponto de partida das investigações se deu no ano de 2019, motivado pela apreensão de manuscritos e bilhetes na Penitenciária II de Presidente Venceslau. Os textos traziam diretrizes internas do bando e faziam alusão a uma “mulher da transportadora”, que supostamente dava suporte aos criminosos. Com base nisso, a Polícia Civil instaurou inquéritos consecutivos que desaguaram na localização de uma empresa de fretes pertencente aos parentes de Marcola, apontada como o motor financeiro da quadrilha.

Um dos policiais reforçou esse elo histórico durante a coletiva:

“Foi a carta apreendida dentro da Penitenciária 2 que nos trouxe até essa transportadora, que pertencia à família Camacho”.

O caso ganhou tração definitiva após o recolhimento de um telefone durante a anterior Operação Lado a Lado. Conforme a corporação, a varredura do conteúdo extraído expôs diálogos, comprovantes e ordens de pagamento que conectavam diretamente a influenciadora ao esquema de corrupção.

“A investigação chega até a Deolane por conta da extração do aparelho celular. Ali nós encontramos as transferências bancárias, os comprovantes”.

Os encarregados pelo inquérito ressaltam ainda que mapearam um fluxo financeiro totalmente incompatível com a receita legal declarada pela famosa, com ênfase a partir do ano de 2022.

“Ela teve um aumento muito grande do faturamento, inclusive sem correlação com o trabalho prestado”, ponderou um dos delegados, concluindo que: “Isso vai gerar sonegação fiscal, talvez outras lavanderias e outros investimentos”.

De acordo com a Polícia Civil, os envolvidos estruturaram uma teia intrincada de pessoas jurídicas para apagar as pistas do dinheiro.

“Nós encontramos grandes transferências bancárias e depósitos em contas não identificadas. Era um fluxo grande de pessoas jurídicas, voltava para a pessoa física, jurídica, e isso faz parte da segunda fase da lavagem de dinheiro, que é a dissimulação da origem ilícita”.

Além da prisão de Deolane, a investida teve como focos centrais Marcos Herbas Camacho, conhecido popularmente como “Marcola” e apontado como a liderança máxima do PCC, e seu irmão, Alejandro Camacho, que já se encontram cumprindo pena no sistema penitenciário. De acordo com o Ministério Público, ambos enfrentarão novos processos por este esquema: “Marcola certamente vai sofrer uma condenação nesse caso”.

As ações também cruzaram as fronteiras nacionais. Uma das investigadas, de nome Paloma, encontra-se foragida na Espanha e já foi incluída na lista de procurados da Interpol: “Ela deve ser presa nas próximas horas”.

Os investigadores sublinharam que o caso expõe uma modernização nas táticas financeiras das facções, que passaram a recrutar fintechs, influenciadores digitais e a estrutura empresarial formal para dar roupagem de legalidade ao capital do crime.

“A gente já aprendeu que eles têm fintechs, que usam a economia formal e arregimentam jovens para emprestar RG e abrir empresas”, destacou uma das autoridades, emendando que: “Muitas vezes usam lacunas do próprio Estado para jogar o dinheiro ilícito dentro da economia formal”.

O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, definiu o cenário descoberto como “um oceano de lavagem de dinheiro” e frisou que a mobilização policial carrega uma mensagem educativa para a sociedade.

“Não tem caminho fácil. Não adianta ficar esfregando dinheiro na cara do jovem para ser advogado do PCC”.

Segundo informações da Polícia Civil, os relatórios do inquérito foram finalizados e serão repassados ao Ministério Público para a formalização da denúncia criminal. O corpo técnico sinaliza que a varredura de tudo o que foi coletado nesta quinta-feira possui potencial para abrir novas frentes de apuração, com foco especial em empresas e portais de apostas online.