Saude e Bem-Estar Política
Lula passa por radioterapia após cirurgia na cabeça; saiba motivo
Conforme o comunicado emitido pelo Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, a estratégia consiste em radiação superficial, estruturada em um ciclo de 15 aplicações ao longo de um período de três semanas
26/05/2026 10h36
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos Fonte: Folha de São Paulo
Reprodução: Mateus Bonomi/Reuters

O protocolo de radioterapia iniciado nessa última segunda-feira (25) pelo mandatário Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na sequência da remoção de um carcinoma, um tipo de câncer de pele, no couro cabeludo, consiste em uma medida terapêutica de suporte visando minimizar as probabilidades de reincidência da patologia na mesma região.

Conforme o comunicado emitido pelo Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, a estratégia consiste em radiação superficial, estruturada em um ciclo de 15 aplicações ao longo de um período de três semanas, mantendo-se inalterada a agenda de compromissos do presidente.

A neoplasia, extraída nos últimos dias de abril, foi diagnosticada como um carcinoma basocelular. Trata-se da forma mais frequente e menos virulenta de câncer de pele, possuindo um potencial ínfimo de se espalhar para outros sistemas do organismo. Embora o procedimento cirúrgico baste para a erradicação na maioria dos episódios, especialistas pontuam que o uso da radioterapia é uma alternativa frequente para conferir maior "segurança oncológica".

Embora o boletim médico não tenha explicitado o motivo da prescrição, especialistas consultados pela Folha de São Paulo detalham que a decisão é comum em contextos específicos. Um exemplo clássico envolve a detecção de invasão perineural pelo exame anatomopatológico, quando a neoplasia se manifesta próximo a pequenos nervos.

"Mesmo com margens livres, esse achado aumenta o risco de retorno local e costuma justificar radioterapia complementar", pontua Rodrigo Guedes, diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e referência em oncologia cutânea, à Folha.

Adicionalmente, a conduta é aplicada se a margem da ressecção for extremamente reduzida ou insuficiente, momento em que a radiação atua como um mecanismo de varredura de eventuais fragmentos celulares remanescentes. Guedes menciona ainda a hipótese de reaparecimento do tumor no ponto original: "Quando o tumor reaparece após uma cirurgia prévia, é comum associar radioterapia para reduzir a chance de nova recorrência".

Denise Ferreira, diretora da Sociedade Brasileira de Radioterapia, sublinha que o método radioterápico é uma das vias principais de combate a neoplasias de pele, frequentemente preterida pela cirurgia por questões práticas, mas essencial quando aspectos anatômicos, estéticos ou de complexidade da remoção demandam maior cautela. Segundo ela, ao lidar com a região do couro cabeludo, a escolha terapêutica pode ser motivada por uma infiltração maior do que a observada visualmente.

"Para evitar uma cirurgia muito extensa, com necessidade de retalhos e maior morbidade, pode-se optar pela radioterapia complementar, que também tem excelente taxa de controle", esclarece Ferreira ao veículo.

Complementando a visão técnica, Elton Leite, radio-oncologista do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), define o tratamento pós-cirúrgico como um padrão para cenários particulares de carcinoma basocelular. "Mesmo sendo um tumor de excelente prognóstico, dependendo da localização e de fatores encontrados no exame patológico, a radioterapia funciona como consolidação. Ela esteriliza o leito tumoral e reduz ainda mais a chance de recorrência", reforça. Ele acrescenta que, em situações de comprometimento da musculatura ou do osso subjacente, o suporte radioterápico eleva o índice de cura, que já costuma ser "altíssima, superior a 90%", conforme Guedes.

A tecnologia empregada é a radiação superficial, que utiliza elétrons para limitar o campo de ação às camadas mais superficiais da derme, resguardando tecidos profundos e a caixa craniana. Sobre o esquema adotado, denominado hipofracionamento, doses um pouco mais elevadas distribuídas em um cronograma mais breve, Ferreira ressalta que é um "formato moderno, bem estabelecido, que reduz o tempo total de tratamento e facilita a rotina do paciente sem comprometer a eficácia".

Quanto aos impactos físicos, os especialistas são unânimes: as reações são de baixa gravidade e restritas à área tratada. O quadro pode apresentar eritema ou irritação cutânea (radiodermite), além de uma perda capilar reversível na zona alvo. Como a fadiga, se surgir, é de mínima expressão, o protocolo não interfere nas atribuições presidenciais.

Por fim, Denise Ferreira nota que a notoriedade deste caso contribui para que o público conheça melhor uma técnica frequentemente subutilizada. "A radioterapia para tumores de pele tem baixa visibilidade, mas muitas vezes evita múltiplas cirurgias e preserva melhor a estética e a função. É importante que a população saiba que ela também é uma opção curativa".