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“Pela metade”: a verdadeira masculinidade está em assumir os medos, não em demonstrar força
Série da HBO Max é criada e estrelada por Richard Gadd, responsável pelo fenômeno “Bebê Rena”
30/05/2026 06h07 Atualizada há 3 meses
Por: Flávio Melo
Foto: Divulgação/HBO Max

Terminei "Pela metade" acometido por uma sensação estranha, e não sei se positiva. Por diversas vezes, ao longo dos seis episódios, entre exposições de traumas e dores incuráveis, me peguei fazendo a mesma pergunta: "o que exatamente essa história quer me contar?".

A cada capítulo, a sensação era de que eu estava acompanhando personagens presos em um ciclo de violência e autodestruição sem que houvesse uma razão que justificasse aquela jornada. E, ainda assim, quando os créditos apareciam, eu aguardava ansiosamente a disponibilização do próximo episódio na plataforma.

Talvez seja esse o maior truque de Richard Gadd, criador de "Bebê Rena" (Netflix) e desta série já disponível por completo na HBO Max.

"Pela metade" não conquista pelo que diz, mas pela maneira como prende. É como observar uma tempestade se formando. Você sabe que algo incômodo está por vir, mas permanece hipnotizado pelo fenômeno.

A festa de casamento de Niall (Jamie Bell) e Alby (Charlie de Melo), anos depois de se conhecerem, se perderem por uma tragédia e se reencontrarem, funciona como um grande palco onde lembranças do passado vão sendo ressuscitadas à medida que são reveladas ao público.

Ruben (Richard Gadd), ao surgir na cerimônia após mais um longo período na prisão, tem algo a dizer? Contas a acertar? Veio buscar redenção?

A minissérie, ou série limitada, já que não ganhará uma continuação, desenvolve a relação tóxica, obsessiva e perturbadora de dois rapazes que, durante décadas, enxergaram um ao outro como irmãos, não para se apoiarem, mas para terem alguém a quem culpar.

Em muitos momentos, tive a impressão de que a narrativa girava em círculos: a relação entre Niall e Ruben se alimentando das mesmas feridas, trilhando caminhos já conhecidos, porém que precisavam ser explicitados.

Ainda assim, existe algo hipnótico na construção dessa amizade disfuncional. Um fascínio quase incômodo que transforma cada final de capítulo em um convite irrecusável para seguir adiante.

É uma experiência curiosa.

Poucas produções me fizeram sentir tão pouco convencido sobre a necessidade de sua existência e, ao mesmo tempo, tão incapaz de abandoná-la.

O elenco brilha, mergulha nas fragilidades de seus personagens e não teme a exposição, evidenciando uma das qualidades da série: a ausência de máscaras.

Nem toda obra precisa apresentar respostas ou reinventar discussões. Algumas existem apenas para nos capturar. E "Pela metade" faz isso com uma eficiência cirúrgica.

Quando termina, a pergunta sobre sua relevância permanece. Mas a memória das horas passadas diante da tela reafirma que, mesmo sem inovar, a série soube exatamente como nos transportar para um universo onde nos faz compreender que a fraqueza de um pode se tornar o trampolim do outro.

Seria essa a sua grande lição?