O antigo ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT-SP), atravessa um momento complexo em sua jornada pelo comando do Executivo paulista. Contudo, mantendo sua postura habitual e convicto de sua retidão, o petista não hesita em defender uma pauta impopular: a incidência de tributos federais sobre aquisições globais de valores inferiores a 50 dólares, popularmente conhecida como "taxa das blusinhas".
Recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mencionou, durante o programa Sem Censura, na TV Brasil, que Haddad sustentava que essa taxação, instituída em 2024 e suspensa durante o pleito, "realmente era uma coisa boa", "para proteger a indústria nacional", tendo externado essa "convicção" ao chefe do Executivo.
Ao ser questionado pela BBC News Brasil na quarta-feira (27/5) se sua análise inicial teria sido equivocada, Haddad foi categórico: "Não mudei de opinião".
Sua justificativa alinha-se ao posicionamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que, em abril, defendeu que o tributo garantiu a manutenção de 135 mil postos de trabalho, e dos estados, que persistiram na cobrança do ICMS sobre tais transações. Segundo o ex-ministro: "Uma loja aberta não pode pagar mais imposto do que uma loja virtual".
Ele complementa com uma crítica ao atual governador paulista: "Os governadores estão cobrando taxa de blusinha e ninguém vai perguntar para o Tarcísio [de Freitas, governador de São Paulo] se ele é contra ou a favor do ICMS que ele está cobrando", acrescentou em entrevista à BBC News Brasil
O confronto com Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi um tema recorrente na conversa, refletindo o esforço do petista em demonstrar maior aptidão para gerir setores estratégicos, como a segurança pública. De acordo com a pesquisa Quaest de abril, o cenário eleitoral é desafiador para Haddad, com Tarcísio atingindo até 38% das intenções de voto frente a 26% do petista.
Embora o calendário eleitoral não tenha sido oficialmente aberto, Haddad intensifica suas agendas pelo interior e em instituições de ensino. Quanto à composição da chapa, a definição do vice deve ocorrer entre 10 e 15 de junho.
Além disso, o partido debate o futuro sucessório após a provável despedida de Lula das disputas presidenciais em 2026. Haddad, um dos poucos quadros do PT a concorrer ao Planalto, tendo enfrentado Jair Bolsonaro (PL) em 2018, mantém cautela quanto a um possível protagonismo: "Não dá para planejar desse jeito", afirmou, pontuando que o cenário nacional ainda é dinâmico.
Contudo, ele especula sobre o processo interno de escolha: "Imagina se tiver uma prévia no PT? Seria o máximo." Relembrando o único precedente histórico de 2002, quando Eduardo Suplicy desafiou Lula, Haddad concluiu: "Eu acredito que, se tivesse uma prévia no PT, e estou te respondendo assim porque nem sei se vai ter, poderia ser um negócio muito bonito".