As revelações da ex-marqueteira do PT, Danielle Fonteles, perante a Polícia Federal, inauguraram um novo foco de desgaste para a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. O depoimento corrobora a presença de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, em encontros vinculados às operações de Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", figura central em um esquema de fraudes bilionárias que vitimou aposentados.
No programa Ponto de Vista, conduzido por Laísa Dall’Agnol, o jornalista Ricardo Chapola pontuou que a situação se transformou em “uma pedra no sapato” da administração federal, a despeito da inexistência de provas sobre transferências monetárias ao filho do chefe do Executivo. A VEJA obteve acesso aos termos do relato de Fonteles, residente em Portugal desde 2019 e apontada nas apurações como assessora do empresário em projetos no setor de cannabis terapêutica.
Segundo a apuração citada por Chapola, a ex-marqueteira confirmou aos agentes federais a estada de Lulinha em solo português para conhecer uma planta industrial de canabidiol associada ao "Careca do INSS". “Ela confirma o que outras pessoas que estão nesse caso também já diziam: que o Fábio de fato viajou para Portugal para fazer essa visita a essa fábrica”, pontuou o repórter.
O testemunho reforça que o herdeiro do presidente não apenas viajou ao país, mas marcou presença em sessões de trabalho sobre a empreitada. “Ela confirmou que ele não só viajou, como também participou de algumas reuniões relacionadas a esse negócio do Careca do INSS lá em Portugal”, acrescentou.
Contudo, a depoente ressalvou que Lulinha mantinha uma postura passiva. “O Fábio em nenhum momento tomava atitudes como se fosse tomar decisões negociais. Ele participava mais como um ouvinte”, narrou o jornalista.
Embora a assessoria jurídica de Fábio Luís refute qualquer desvio, o mero estreitamento de laços com um alvo da PF gera prejuízos à imagem do governo Lula. “Você ter contato com uma pessoa que está sendo investigada, como é o caso do Careca do INSS, acaba sendo uma dor de cabeça muito maior do que se pinta”, avaliou Chapola.
Os representantes do filho do presidente reiteram que ele nunca foi beneficiário de verbas do investigado. Conforme a defesa, durante o período da viagem, Antônio Carlos Camilo Antunes não detinha notoriedade pública acerca de seu envolvimento com o escândalo do INSS. “O Fábio só conhecia o Antônio Carlos Camilo Antunes como um empresário bem-sucedido do ramo farmacêutico”, detalhou o jornalista sobre o posicionamento dos advogados.
Durante a atração, Laísa ponderou que o fato deve servir de munição política para os adversários. Chapola previu que o tema ganhará contornos tanto nas esferas legislativas quanto na corrida eleitoral de 2026. “Em ano eleitoral, qualquer história envolvendo um adversário importante serve de munição”, disse, completando que o PT deverá manter o foco no escândalo do Banco Master para contra-atacar o bolsonarismo. “São munições que devem ser usadas tanto no Congresso quanto na campanha propriamente dita”.
Apesar do encerramento da CPI do INSS, as diligências seguem em curso pela PF e pela Controladoria-Geral da União, concentrando-se na análise de comunicações, deslocamentos e eventuais vínculos corporativos dos envolvidos no esquema. Até agora, segundo os defensores, inexistem evidências de aportes financeiros irregulares ligando o nome de Fábio Luís a tais fluxos.
Procurados pela VEJA, os advogados de Lulinha salientaram que a validação da viagem não traz fatos inéditos, reforçando que o filho do mandatário se apresentou espontaneamente para elucidar os fatos. A defesa enfatiza que, no momento da viagem, o lobista era visto apenas como um empresário próspero no setor farmacêutico, negando qualquer interface, direta ou indireta, com as atividades ilícitas do "Careca do INSS".
“Esse depoimento é revelador. Revela que Fábio não tem nenhum envolvimento com isso, nem cometeu qualquer ilicitude”, declarou Marco Aurélio Carvalho, que integra a defesa de Fábio ao lado de Guilherme Suguimori.