A peça acusatória formalizada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) contra a criadora de conteúdo Deolane Bezerra elenca uma série de condutas atípicas que fundamentaram o requerimento de continuidade de seu cárcere provisório. O documento, assinado pelo promotor Lincoln Gakiya, aponta para a existência de empresas fictícias registradas pela famosa, além de um volume fora do comum de transações eletrônicas via Pix.
A advogada foi detida em solo paulista sob a suspeita de conexões com a cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC). De acordo com os órgãos de controle, as contas bancárias associadas ao seu nome e marcas transacionaram uma cifra superior a R$ 140 milhões entre julho de 2022 e maio de 2024.
O rol de denunciados pelo MPSP inclui Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como o chefe supremo da facção, seu irmão Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, os sobrinhos Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Paloma Sanches Herbas Camacho, além de Everton de Souza, o "Player", apontado como gestor dos recursos do grupo.
O corpo de advogados que atua em favor de Deolane contesta categoricamente o suposto envolvimento dela com o crime organizado.
“A defesa ainda não teve acesso à acusação e, tão logo for citada, apresentará a devida resposta, reafirmando que Deolane não faz parte de nenhuma organização criminosa e tampouco cometeu qualquer crime, o que será provado ao longo do processo”, diz nota divulgada pelos advogados Aury Lopes Jr., Josimary Rocha, Rogério Nunes e Luiz Ricardo Imparato.
A fiscalização do MPSP sustenta que as companhias criadas pela influenciadora exibem indícios de corporações fantasmas, dado que suas sedes declaradas carecem de aparatos logísticos mínimos e faltam registros fiscais adequados para as movimentações apresentadas. Para a acusação, Deolane exercia uma função estratégica de alta performance na ocultação de patrimônio ilícito, reinserindo o capital da facção na economia formal através de seus negócios e parentes.
Paralelamente, relatórios emitidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) flagraram transações totalmente desproporcionais aos rendimentos declarados pelos investigados. O MPSP destacou estratégias como o fracionamento proposital de quantias, depósitos pulverizados e o uso massivo do Pix para despistar as autoridades.
Os promotores identificaram uma engrenagem financeira em franca expansão nas empresas de Deolane, desprovida de suporte comercial real. O órgão afirma que a expressiva projeção da famosa nas plataformas digitais servia de fachada para camuflar o trânsito dos valores, uma vez que as auditorias bancárias não localizaram contratos publicitários regulares ou honorários de advocacia que justificassem tais somas.
Diante do risco à segurança pública e do avanço internacional da organização, o MPSP requereu a conservação das prisões preventivas de todo o grupo, bem como o confisco de bens e propriedades sem origem lícita comprovada.
A denúncia reuniu ainda imagens extraídas da internet para atestar o vínculo da influenciadora com o núcleo íntimo dos Camacho, destacando sua proximidade com o irmão e a cunhada do líder do PCC.
Fotografias documentam a presença frequente de Deolane com Francisca Alves da Silva (esposa de Alejandro), “circunstância que afasta a hipótese de contato meramente eventual ou fortuito e revela convivência reiterada em ambientes privados e sociais”, escreveram os investigadores.
Outros registros fotográficos exibem a empresária ao lado de Bárbara Alves Mota e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Neto, respectivamente enteada e filho de Alejandro, o que, para a Polícia Civil paulista, ratifica uma relação de intimidade estendida a diversos membros da família.