A oscilação mais expressiva detectada pela mais recente amostragem da Quaest não se deu nas alas convictas à esquerda ou à direita, mas sim no cerne da população que se declara politicamente neutra. Em entrevista concedida ao canal VEJA em Foco, sob a condução de Marcela Rahal, o diretor-executivo do instituto, Felipe Nunes, explicou que a migração dessa parcela da sociedade esclarece o fortalecimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos estudos estatísticos recentes.
Conforme a análise do especialista, os apartidários correspondem a praticamente um terço dos votantes no país e constituem a maior força numérica do cenário nacional. Devido à ausência de amarras doutrinárias, esses indivíduos respondem de forma muito mais ágil aos acontecimentos da economia e da política.
“Esse é o eleitor que vai definir a eleição”, afirmou Nunes.
O executivo detalhou que a instituição adota uma metodologia de divisão que pulveriza a população em cinco espectros políticos distintos: lulistas convictos, progressistas não lulistas, moderados/independentes, conservadores não bolsonaristas e bolsonaristas convictos.
Pelos dados tabulados por Nunes, a faixa isenta concentra por volta de 30% da amostragem. O segmento fiel a Lula detém cerca de 22%, equivalendo à mesma fatia da direita desvinculada de Jair ou Flávio Bolsonaro. Por fim, os bolsonaristas tradicionais e a ala de esquerda não ligada ao atual mandatário representam 13% cada.
Essa separação é mapeada com base nas próprias declarações e convicções manifestadas pelos participantes consultados.
Diferente dos cidadãos firmemente engajados no lulismo ou no bolsonarismo, os moderados evitam ligações de longo prazo com siglas ou lideranças específicas. Nunes caracteriza essa massa como essencialmente prática, movida pela realidade do cotidiano e desprovida de paixões partidárias.
“O eleitor independente é um eleitor volátil, é um eleitor indeciso. Ele é um eleitor pragmático, não ideológico”, disse.
Sob esse aspecto, coberturas jornalísticas impactantes e flutuações financeiras repercutem de maneira imediata nesse bolsão de eleitores, ao passo que os polos ideológicos cristalizados permanecem praticamente indiferentes aos fatos.
O histórico dos últimos meses aponta que os isentos vivenciaram guinadas marcantes. O pesquisador indicou que esse eleitorado esteve inclinado a apoiar a gestão petista no fechamento do último ano, inclinou-se em direção a Flávio Bolsonaro no mês de abril, e refez o caminho de volta para os braços do presidente nas semanas que se sucederam.
Duas vertentes justificam essa oscilação recente. De um lado, o desgaste sofrido pela imagem pública do senador Flávio Bolsonaro, afetada por controvérsias envolvendo seu vínculo com o banqueiro Daniel Vorcaro e suas articulações junto ao líder norte-americano Donald Trump. De outro, as políticas econômicas do Executivo Federal, que começaram a gerar benefícios palpáveis na mesa do cidadão.
Nunes chamou a atenção para o impacto positivo dos mutirões de quitação de débitos e os reflexos diretos do alívio tributário na tabela de isenção do Imposto de Renda.
Durante a entrevista, o gestor da Quaest argumentou que grandes transformações nas tendências de voto dificilmente se originam nos extremos das correntes de Lula ou Bolsonaro. Ele comparou os grupos fiéis a torcidas de futebol, que blindam seus atletas prediletos mesmo diante de escândalos ou resultados adversos.
Por outro lado, o eleitorado isento atua avaliando dados palpáveis do bolso e as manchetes da semana antes de cravar uma decisão. Exatamente por isso, são tidos como o troféu mais valioso para os comitês de campanha.
Na ótica de Nunes, decifrar os anseios dessa camada é o único caminho seguro para decodificar as curvas dos gráficos de intenção de voto e prever os rumos da disputa pelo poder.
Apesar de indicar um horizonte mais favorável ao Palácio do Planalto no momento, o especialista preferiu evitar prognósticos fechados sobre o desfecho do pleito. Para ele, o calendário ainda reserva margem para novas inversões nas expectativas sociais.
A imprevisibilidade do eleitor neutro foi apontada justamente como a principal razão para manter a moderação nos discursos de vitória. Como essa faixa de 30% navega conforme o vento da conjuntura, qualquer transformação macroeconômica nos meses vindouros poderá redesenhar por completo o tabuleiro eleitoral.