O líder do governo Jaques Wagner (PT-BA) foi alvo da Polícia Federal na nova etapa da Operação Compliance Zero, que investiga ilícitos ligados ao caso Master. O escândalo atinge políticos de diferentes espectros partidários. Contudo, especialistas apontam com exclusividade ao Terra que o cenário para a eleição presidencial permanece polarizado entre Lula e Flávio Bolsonaro, sem margem para alternativas de centro.
O cientista político Fabio Andrade, professor da ESPM, avalia que o favoritismo dos líderes é sólido. Mesmo com o desgaste do caso Master, não há brecha para uma força intermediária. “Não há tempo hábil, mesmo com todos os problemas”, adverte. Ele acrescenta que a alternância de revelações entre situação e oposição ditará o prejuízo eleitoral na reta final: “Aumentou a incerteza, porque parece que há indícios de que tanto o governo quanto a oposição e o centrão estão comprometidos. O que tem variado é o momento em que aparecem [as revelações]. E aí, conforme for mais perto da eleição, esse fator pode ser importante”, disse ao Terra.
Leandro Consentino, professor do Insper, projeta que o caso pode elevar abstenções e votos nulos entre eleitores independentes, estimulando a ideia de que “todos os políticos são iguais”, que a política “não tem mais jeito” e que a “ladroagem está espalhada por todos os lados”. Para ele, essa percepção anticlerical pode alavancar discursos radicais: “Isso pode gerar de alguma forma um benefício àqueles que se colocam como antissistema, negando a política. E quem surfar nesse tipo de estratégia pode colher bons frutos também”, pontuou o educador ao veículo.
Já Christian Lynch, professor do IESP/UERJ, minimiza o impacto direto sobre o Planalto: “O candidato à presidência não é Jaques Wagner, é Lula. Que, ao contrário de Flávio, segue intocado pelo escândalo. Ademais, a imagem do PT como corrupto já está cristalizada junto ao eleitorado antipetista”. Sobre a oposição, destaca: “Flávio tem teto baixo, mas piso mais alto que todos os concorrentes”.
A nona fase da apuração colheu indícios de transações suspeitas entre o parlamentar e os executivos Augusto Ferreira Lima e Daniel Vorcaro. O ministro André Mendonça autorizou mandados de busca e medidas restritivas (retenção de passaporte e proibição de contato). As suspeitas contra Wagner envolvem:
Imóvel: Compra oculta de um apartamento em Salvador de R$ 2,4 milhões.
Repasses: Transferências financeiras para a BN Financeira Ltda., ligada à sua família.
Tráfico de influência: Atuação legislativa em favor do banco envolvendo crédito consignado, o teto do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e a compra do Master pelo BRB.
Em contrapartida, a assessoria do petista emitiu nota reforçando que ele “não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados”. O comunicado afirma que “cabe esclarecer que o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar. O senador também nega atuação em favor do Banco Master ou qualquer outra instituição financeira”.
Quanto ao montante em dinheiro confiscado, a defesa alega que “o montante é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais. Por fim, o senador Jaques Wagner reitera que permanece à inteira disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos, com a certeza de que a verdade prevalecerá”.