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Entenda a crise entre Erika Hilton e Psol após crítica sobre divisão de fundo eleitoral
Na terça-feira (23), a parlamentar acusou a liderança nacional do Psol de quebrar consensos prévios e de adotar parâmetros de distribuição que, na sua visão, inviabilizam projetos eleitorais vitais para a sustentabilidade futura da organização
26/06/2026 12h54
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos Fonte: VEJA
Reprodução: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Os bastidores do PSOL foram sacudidos por um embate público envolvendo a partilha dos recursos financeiros para as campanhas eleitorais deste ano, evidenciando profundas divergências sobre os rumos estratégicos da sigla às vésperas das eleições. O estopim do conflito foi um posicionamento contundente da deputada federal Erika Hilton (SP), um dos principais fenômenos de votos da legenda.

Na terça-feira (23), a parlamentar acusou a liderança nacional do Psol de quebrar consensos prévios e de adotar parâmetros de distribuição que, na sua visão, inviabilizam projetos eleitorais vitais para a sustentabilidade futura da organização. “Está rasgando nossos combinados e praticamente nos inviabilizando”, desabafou a parlamentar em uma postagem na plataforma X (antigo Twitter), provocando forte repercussão entre filiados e correntes internas.

Para dirigentes e lideranças consultados pela VEJA, a polêmica vai muito além do debate sobre quantias financeiras isoladas. O verdadeiro foco de preocupação é a engenharia política necessária para que o PSOL consiga superar a cláusula de barreira em 2026, uma norma que restringe o acesso ao fundo partidário e ao horário eleitoral gratuito para as siglas que não atingem a performance mínima exigida nas urnas.

Assimetrias regionais e queixas na base

Sob anonimato, um membro do diretório nacional alertou à VEJA que o PSOL flerta com o perigo de não alcançar os patamares da cláusula de desempenho caso fragilize candidaturas com forte apelo popular e poder de atração de votos. Conforme esse dirigente, estados cruciais na matemática eleitoral estão recebendo tetos orçamentários muito abaixo do esperado pelas lideranças locais, gerando questionamentos da militância sobre as prioridades da cúpula.

“Estão propondo mandar apenas 100 mil reais para o Acre, onde temos 37 candidaturas”, denunciou a fonte à VEJA, optando pelo sigilo de sua identidade. “Uma vereadora do Recife, pré-candidata a deputada estadual, mulher, negra, ambulante, única parlamentar do PSOL no estado de Pernambuco, vai receber 200 mil reais, enquanto no Sudeste os candidatos ultrapassam 1 milhão de reais”, complementou.

Em suas críticas, Erika pontuou que a sigla abriu mão de uma cartilha histórica que ponderava questões de identidade, gênero e etnia na divisão do bolo financeiro. A deputada também contestou os aportes volumosos desenhados para nomes alinhados à atual gestão do partido, citando nominalmente o ex-presidente da legenda, Juliano Medeiros, que concorrerá à Câmara dos Deputados, e a recém-chegada Manuela d’Ávila, postulante ao Senado pelo Rio Grande do Sul. Questionada pela revista VEJA, Manuela esquivou-se do tema, limitando-se a dizer que “o PSOL já se manifestou suficientemente”.

Outra voz a endossar o descontentamento foi a do vereador carioca Rick Azevedo. Protagonista das mobilizações pelo término da jornada de trabalho 6x1 e pré-candidato a deputado federal, ele alertou que o partido corre o risco de reeditar os equívocos do pleito municipal de 2024. De acordo com Azevedo, lideranças com forte apelo de massas estão sendo minimizadas pelo comando nacional.

O outro lado: Contraponto e manifestação da Executiva

Alvo direto dos questionamentos, Juliano Medeiros rebateu publicamente as declarações da colega de partido. Por meio de uma nota nas redes sociais, o ex-dirigente revelou que Erika Hilton será a candidata a cargo proporcional com o maior volume de verba do PSOL no Brasil, estimado em aproximadamente R$ 2,3 milhões. Ele rechaçou qualquer abandono das políticas afirmativas para mulheres, negros, populações indígenas, pessoas com deficiência e o público LGBT+.

Medeiros sustentou que a tática eleitoral traçada busca equilibrar a preservação das cadeiras atuais no Congresso com a oxigenação dos quadros, apontando apostas prioritárias como Manuela d’Ávila e Natalia Boulos, esposa do ministro Guilherme Boulos.

Em sua defesa, a Executiva Nacional do PSOL ponderou que a proposta orçamentária ainda passará pelo crivo das instâncias deliberativas do partido e negou o desmonte das ações de inclusão. Em comunicado oficial, a legenda reafirmou o protagonismo financeiro de Erika na chapa proporcional e salientou que a meta central é encorpar as bancadas no Legislativo e dar sustentação à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Raízes de uma velha fratura

Por trás da guerra de narrativas financeiras, integrantes do partido admitem que o cenário expõe um debate estrutural sobre os rumos ideológicos do PSOL. Desde que a corrente liderada por Guilherme Boulos optou por permanecer nos quadros da agremiação, em março deste ano, defensores dessa ala cobram a blindagem de nomes com alta capacidade de votação nacional. A meta é blindar as figuras de maior apelo para que atritos internos não sabotem os puxadores de voto necessários para blindar o partido do fantasma da cláusula de barreira em 2026.

Na disputa anterior para o Parlamento, Boulos liderou os votos na legenda e no país, acumulando 1.001.472 votos em São Paulo. Erika Hilton garantiu a nona posição no estado e a segunda na sigla, com 256.903 votos. Sem a presença de Boulos no pleito deste ano, em razão de sua permanência no ministério, Erika assume o papel de principal motor de votos do PSOL em território paulista.