Durante a abertura da cúpula do Mercosul, realizada em Assunção, no Paraguai, o chefe do Executivo brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu a soberania regional ao declarar que "ninguém é dono do mundo e ninguém é dono da América do Sul". Em sua fala, o mandatário ressaltou que "nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes", embora tenha evitado apontar nomes específicos.
Em um contexto de transformações globais, o petista enfatizou a necessidade de uma diplomacia equilibrada: “Nossa força estará na capacidade de dialogar com todos, sem deixar de lado nossos interesses. Diversificar parcerias, ampliar a cooperação e preservar a autonomia são requisitos para que uma região encontre seu espaço em um mundo em transformação”, disse o presidente em seu discurso.
A atual conjuntura política da América do Sul impõe ao Brasil a necessidade de readequar suas estratégias de interlocução. Atualmente, a maioria das nações vizinhas é governada por gestões de direita, um cenário que mudou drasticamente desde o início do terceiro mandato de Lula em 2022, quando apenas Equador e Uruguai compunham este espectro. Hoje, Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Colômbia e Peru alinham-se ao campo político oposto, o que torna a busca por consensos uma tarefa mais complexa.
Essa fragmentação ideológica impacta discussões sensíveis, como a exploração de terras raras (minerais críticos). Enquanto o Brasil mantém a premissa de que a extração deve ser rigorosamente controlada pelo Estado brasileiro, a Argentina, sob a administração de Javier Milei, optou por facilitar o acesso norte-americano aos seus recursos através de tratados com Donald Trump. Para lidar com tais disparidades, o planejamento de Brasília aponta para uma transição nas táticas de negociação, priorizando acordos bilaterais em detrimento de tratativas coletivas. Apesar das tensões, pautas comerciais seguem avançando, como a prospecção de vínculos com o Japão, tópico debatido por Lula e pela premiê japonesa, Sanae Takaichi, na última cúpula do G7.
Apostando em inovação, o presidente brasileiro propôs a criação de um sistema de transações financeiras integrado ao Mercosul, espelhado no modelo do pix brasileiro. Segundo o governante, “o Pix é referência internacional de inclusão financeira e eficiência digital”, e “sua arquitetura pode servir de base para um sistema de pagamento que beneficie todos os cidadãos do Mercosul”. A estratégia visa otimizar custos, impulsionar trocas comerciais entre os vizinhos e fortalecer a autonomia financeira do bloco.
Entretanto, o uso desta tecnologia coloca o Brasil em rota de colisão com Washington. O governo Trump, por meio do USTR, iniciou uma investigação que culminou em ameaças de sanções tarifárias ao Brasil, classificando o sucesso do Pix em detrimento de bandeiras como Visa e Mastercard como uma prática “irrazoáveis”.
Encerrando sua participação com um tom mais incisivo, o presidente abordou suas intenções políticas futuras, justificando sua possível candidatura à reeleição como uma defesa da estabilidade democrática. Ao autodeclarar-se com a “vitalidade de um jovem de 20” anos, apesar de completar 80 anos de vida, o petista confirmou: “Vou concorrer para não deixar o país na mão de irresponsáveis”.
Reforçando o compromisso com a continuidade de seu projeto político, ele concluiu: "Vou concorrer às eleições para poder garantir que o Brasil se mantenha como um país democrático, porque não é possível a gente imaginar irresponsáveis governando um país de 215 milhões de habitantes".