Entre deboches, postagens irônicas e comentários que oscilam entre a reverência e a zombaria, um rótulo inusitado ganhou força nas plataformas digitais: "neysexual". O termo tem sido adotado por rapazes que se declaram heterossexuais para ironizar uma suposta predileção pelo jogador Neymar. Para além da descontração, a tendência instiga reflexões sobre conduta, papéis de gênero e as formas contemporâneas de externar apreço no mundo virtual.
Conforme a análise da neurocientista Telma Abrahão ao jornal O Globo, essa narrativa não deve ser lida de maneira literal como uma pauta de inclinação sexual. Para ela, a construção de elos simbólicos com celebridades elucida a razão pela qual determinados nomes incitam identificação e entusiasmo.
"O cérebro humano tende a criar uma sensação de familiaridade e conexão com pessoas que ocupam um espaço de grande relevância social e midiática. Neymar reúne atributos associados a sucesso, status, competência, reconhecimento e visibilidade, tornando-se uma figura sobre a qual muitas pessoas projetam desejos, aspirações e até aspectos da própria identidade. Na internet, essa admiração frequentemente é traduzida em memes e brincadeiras. Em muitos casos, o humor funciona como uma forma socialmente aceita de expressar fascínio, identificação ou admiração por alguém que se tornou um ícone cultural", explica Abrahão ao O Globo.
Apesar da linguagem frequentemente carregar tons de natureza sexual, a especialista pondera que esse comportamento nem sempre espelha um anseio real. A dinâmica entre reverência e atração é multifacetada: "A atração humana é muito mais complexa do que apenas orientação sexual. É possível admirar profundamente atributos físicos, carisma, confiança, competência ou poder sem que isso represente necessariamente um desejo sexual. Nas redes sociais, essa admiração muitas vezes aparece em forma de brincadeiras com conotação sexual, exageros ou comentários provocativos. Em muitos casos, estamos diante de uma erotização simbólica, utilizada como recurso de humor, e não de uma manifestação literal de desejo. O ambiente digital favorece esse tipo de linguagem porque amplifica o exagero e transforma emoções complexas em conteúdos facilmente compartilháveis", detalha ao veículo.
A viralização também evidencia as tensões masculinas quanto à expressão de sentimentos. Segundo a analista, o uso da sátira para mediar o encantamento seria um método de preservar a imagem pessoal frente aos padrões de conduta vigentes.
"As redes sociais funcionam como um palco onde as pessoas constroem e apresentam versões de si mesmas. No caso dos homens, ainda existe uma expectativa social de demonstrar segurança, autoconfiança e controle emocional. Nesse contexto, o humor pode funcionar tanto como um mecanismo de proteção quanto como um regulador social. Ao transformar admiração em meme, muitos homens conseguem expressar afeto, encantamento ou fascínio sem sentir que estão rompendo diretamente com os modelos tradicionais de masculinidade. É uma forma de comunicar algo emocionalmente verdadeiro, mas revestido de ironia", sintetiza.
Por fim, a especialista adverte que a simplificação via meme pode limitar debates mais profundos. "As redes sociais tendem a simplificar comportamentos complexos em narrativas fáceis de consumir e compartilhar. Isso pode reforçar estereótipos tanto sobre quem admira o jogador quanto sobre a forma como os homens ‘deveriam’ demonstrar admiração entre si. Quando tudo vira meme, existe o risco de transformar formas legítimas de admiração em caricaturas. Como consequência, continuam sendo reforçados padrões rígidos de masculinidade, nos quais demonstrações de afeto, encantamento ou admiração entre homens ainda precisam ser justificadas pelo humor ou pela ironia", pontua.
A centralidade do atleta na brincadeira decorre da magnitude de sua representação. Ele ultrapassou a fronteira do esporte para se tornar um arquétipo cultural. "Neymar deixou de ser apenas um atleta há muito tempo. Ele se tornou um fenômeno cultural. Sua imagem reúne talento esportivo, enorme exposição na mídia, uma vida pessoal amplamente acompanhada pelo público e uma presença constante nas redes sociais. Do ponto de vista da neurociência, figuras altamente expostas ativam sistemas cerebrais relacionados à atenção, à aprendizagem por repetição e à recompensa", complementa.
Esse fenômeno é reforçado por um princípio psicológico: "Quanto mais frequentemente somos expostos a uma pessoa, maior tende a ser a sensação de familiaridade. Esse fenômeno, conhecido na psicologia como efeito da mera exposição (mere exposure effect), faz com que o cérebro passe a perceber aquela figura como mais próxima e relevante, mesmo sem qualquer contato direto", conclui Abrahão ao O Globo.