A equipe que articula a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) prepara um recurso junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) com o intuito de reverter a determinação do ministro Alexandre de Moraes. A ordem judicial suspendeu, até o encerramento do primeiro pleito eleitoral de 2026, as visitas do senador ao seu pai, o ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena em domicílio.
Fontes próximas ao parlamentar afirmam à Folha de São Paulo que a penalidade gera um dano eleitoral evidente, ao impedir que o pré-candidato debata estratégias e colha opiniões do genitor sobre o rumo da disputa. Apesar disso, a defesa aposta na reversão do quadro, alegando que a medida fere preceitos democráticos.
Rogério Marinho (PL-RN), que coordena o projeto eleitoral de Flávio, classificou o despacho de Moraes como desproporcional, autoritário e “uma clara interferência no jogo político”. Outros integrantes do grupo político sustentam que a punição é ilegal e imoral, ao restringir a comunicação de um sentenciado com seus defensores, visto que o filho integra a equipe jurídica do ex-presidente.
Durante o confinamento domiciliar de Bolsonaro, Flávio mantinha consultas frequentes com o pai, que atuava como mentor das decisões políticas e estava prestes a divulgar um rol de nomes apoiados em cada unidade da federação.
Contraponto e Estratégia
Aliados bolsonaristas têm estabelecido paralelos entre o tratamento dado a Jair Bolsonaro e o período em que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve custodiado pela Polícia Federal em Curitiba, em 2018. Na ocasião, o petista enviou cartas e teve apoio explícito difundido por Fernando Haddad (PT), sem sofrer restrições de correspondência ou manifestações.
Em comunicado enviado à imprensa, a pré-campanha de Flávio recuperou registros daquele período:
“Uma das cartas [de setembro de 2018] com claro viés eleitoreiro promoveu a oficialização da candidatura de Fernando Haddad à Presidência da República, inclusive com pedido de votos ao sucessor. […] Inclusive a carta de Lula aos brasileiros foi lida, em frente à Superintendência da PF de Curitiba, por várias lideranças petistas e postada em redes sociais”.
Dentro do espectro bolsonarista, o discurso unificado é de que Flávio e o ex-presidente são alvos de um assédio judicial orquestrado por Moraes, visando desequilibrar a disputa eleitoral ao isolar o senador.
“O contraste é evidente. Preso em 2018, Lula recebeu centenas de visitas e manteve interlocução política com seus aliados, inclusive Fernando Haddad. Durante a campanha eleitoral, manifestou-se publicamente por cartas, chegando a pedir votos para o candidato que o substituiu. Ainda preso, concedeu entrevistas à imprensa em 2019”, reforçou Marinho.
Perspectivas Divergentes
Por outro lado, opositores e figuras do centrão interpretam a manobra de Flávio como uma estratégia deliberada de vitimização. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) opinou: “Flávio Bolsonaro não leu a carta de Jair Bolsonaro por ingenuidade. Sabia que a decisão judicial proibia o uso das redes sociais, direta ou indiretamente, e transformou a própria violação da medida cautelar em estratégia política”.
Dentro do próprio campo da direita, há quem veja a decisão como um tiro que saiu pela culatra ou como um exagero do magistrado. Deputados como Fausto Pinato (União Brasil-SP) e Evair de Melo (Republicanos-ES) avaliam que o movimento joga o STF para o centro da polêmica, inflamando a base eleitoral, ainda que o impacto prático na disputa seja limitado.
A controvérsia também ecoou nos bastidores da família Bolsonaro. Pessoas próximas a Michelle Bolsonaro sugerem que a atitude do senador pode ter sido um cálculo arriscado, visando isolar o pai da ex-primeira-dama após atritos públicos, ainda que isso pudesse custar o agravamento da pena de Jair Bolsonaro.
A equipe jurídica de Flávio, contudo, refuta a tese de que o risco da punição era previsível ou proposital. Segundo o advogado Tracy Reinaldet, o objetivo do recurso é combater o que classificam como uma medida que flerta com o cerceamento absoluto de direitos:
“Desde a proclamação da Constituição de 1988, deixar o preso incomunicável sempre foi visto pelo Supremo Tribunal Federal como algo inconstitucional. No entanto, a decisão de hoje aproxima o presidente Jair Bolsonaro da incomunicabilidade”, concluiu, reafirmando que buscarão “reverter essa situação ilegal e inconstitucional”, declarou à Folha de São Paulo.