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“A Odisseia”: Christopher Nolan impressiona os olhos, mas não alcança o coração
Com domínio técnico, orçamento milionário e elenco estelar, o cineasta entrega uma adaptação fria, porém monumental
21/07/2026 14h55 Atualizada há 3 semanas
Por: Flávio Melo
Foto: Divulgação

Poucos cineastas entendem tão bem o poder da imagem como Christopher Nolan. Em "A Odisseia", já em cartaz nos cinemas, ele transforma o poema de Homero, um dos mais importantes da literatura ocidental, em um espetáculo autoral de 250 milhões de dólares.

Os efeitos visuais impressionam sem parecer um exercício de vaidade, o desenho de som é avassalador e a trilha de Ludwig Göransson, vencedor do Oscar por "Oppenheimer", também dirigido por Nolan, assume um papel tão visceral que, em muitos momentos, conduz com maestria cada passo da jornada.

Aqui, o diretor britânico continua obcecado pela técnica. E isso é, ao mesmo tempo, sua maior virtude e sua principal limitação. É difícil encontrar um cineasta que domine tão bem a linguagem da sétima arte e, ainda assim, não consiga acrescentar mais calor humano aos seus diálogos, tornando-os quase mecânicos. E assim é seu mais novo trabalho: impecável na forma, mas com as emoções, por vezes, à deriva.

Contudo, o elenco encontra espaço para voar. Matt Damon interpreta um Odisseu sóbrio, convincente e carregado pelo peso de quem já viu a guerra de perto. Tom Holland faz de Telêmaco um jovem que amadurece diante de nossos olhos e encontra alguns momentos de sensibilidade que ajudam a aproximar o público de seu personagem. Anne Hathaway é quem melhor rompe a frieza característica do universo de Nolan. Sua Penélope concentra a carga emocional do filme e transforma cada silêncio em algo profundamente inquietante.

Robert Pattinson confirma, mais uma vez, a versatilidade que vem demonstrando nos últimos anos. Seu Antínoo desperta interesse desde a primeira aparição e, justamente por isso, deixa a sensação de que merecia mais tempo para desenvolver suas camadas. Já Samantha Morton compõe uma Circe tão misteriosa quanto elegante.

Mas é no desfecho que "A Odisseia" revela sua maior beleza. Nolan entende que voltar para casa nunca significou apenas atravessar o mar. O herói que vence monstros e tempestades é derrotado pelo tempo, que transforma seu legado apenas em lembranças.

Assim como em "Oppenheimer", coroado pela Academia como Melhor Filme de 2023, o diretor volta a refletir sobre homens que acreditam salvar o mundo por meio de feitos que também podem destruí-los.

 

A ODISSEIA (THE ODYSSEY) | DIR.: CHRISTOPHER NOLAN | EUA | 2026

NOTA: 7,5