Inflexível durante todo o processo eleitoral de 2022 em relação a acenos do então postulante Luiz Inácio Lula da Silva aos fiéis evangélicos, a esposa do chefe do Executivo, Janja da Silva, alterou sua conduta na atual corrida e vem mantendo contato com vertentes da fé cristã. Ela projeta, para o curto prazo, quando o período eleitoral tiver início formal, um encontro de grandes proporções com lideranças do setor na capital paulista. A virada de chave no relacionamento com os evangélicos surpreende companheiros de partido do mandatário. As informações são do veículo InfoMoney.
Contudo, a despeito do empenho, manifestações da socióloga, a exemplo de seu apoio à proposta legislativa que pune a misoginia como crime, continuam representando barreiras em sua aproximação com o eleitorado evangélico. No último pleito de quatro anos, a primeira-dama foi vista como uma das figuras centrais no adiamento deliberado por Lula para a divulgação de um manifesto voltado a esses fiéis. A confecção de um compromisso público assegurando o livre exercício da fé e do culto era estimulada por toda a coordenação eleitoral, todavia o presidenciável postergou a medida ao limite, formalizando-a a dez dias da votação definitiva.
Lula cedeu após ponderações da congressista Eliziane Gama (PT-MA), que professa a fé evangélica e integrava o PSD no período. Embora tenha marchado ao lado do companheiro em quase toda a agenda de 2022, Janja esteve ausente na cerimônia de divulgação do documento aos evangélicos, sediada em um hotel paulistano.
Dirigentes da sigla envolvidos nas duas disputas afirmam ser incontestável a transformação no comportamento da primeira-dama quanto à comunidade evangélica. Questionada pelo InfoMoney por meio de sua equipe sobre as razões que a levaram a priorizar essa ponte, ela optou por não se pronunciar.
Durante o ano de 2025, Janja empreendeu itinerários por diversos estados para manter contato direto com mulheres evangélicas. Nessas agendas, chegou a interpretar o louvor “Deus cuida de mim”, obra do artista e pastor Kleber Lucas. Em junho deste ano, participou da Reunião Nacional do Setorial Evangélico do PT, na capital federal. Em seu pronunciamento, defendeu a necessidade de a militância avançar no ecossistema religioso e estabelecer diálogo direto com o público feminino das congregações. Ao adotar um jargão comum entre os fiéis, a primeira-dama deu explicações.
“Eu já estou falando ‘nossas irmãs’ porque eu me sinto um pouquinho. O pessoal fica falando: “Ela não é evangélica”, mas eu acredito em Deus e é isso que importa. Eu acredito em Cristo”, apontou a esposa do presidente, que se sensibilizou ao mencionar o louvor ‘Deus cuida de mim’. “Quando escuto o Kleber cantando… Quando eu falo até me emociono, porque o Espírito Santo precisa tocar o nosso coração aonde quer que a gente esteja. Deus está em qualquer lugar.”
Na reunião partidária, relatou que buscou as fiéis impulsionada por seu "coração" e declarou que não atuaria como uma emissária da vertente de esquerda nas conversas. Levamento da Genial/Quaest aponta avanço da preferência eleitoral de Lula no segmento evangélico, ainda que Flávio Bolsonaro (PL) sustente folga na liderança. O senador contabiliza 53% das intenções ante 31% do atual presidente. No mês de maio, a disparidade registrava 61% a 24%.
Apesar do empenho de Janja para estreitar laços com essa parcela da população, ruídos podem surgir. Em conversa com a Folha de S.Paulo e o portal UOL, ela rotulou de misoginia as reprovações sobre os gastos em suas incursões internacionais. O Congresso avalia uma proposição legislativa, com seu endosso, que tipifica a misoginia. Representantes da bancada evangélica solicitam ajustes no texto, sustentando que a redação atual ameaça o direito à liberdade de crença.