A partir de 24 de agosto, o Itaim Bibi, em São Paulo, passa a contar com uma clínica dedicada ao atendimento em saúde mental. Criado pelo psiquiatra Dr. Adiel Rios, o Grupo Nutrindo Emoções by Adiel Rios reúne profissionais de psiquiatria, psicologia, sono, nutrição e atividade física, além de estrutura para procedimentos de Psiquiatria Intervencionista.
A abertura ocorre em um cenário de aumento da demanda por cuidados em saúde mental. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais no mundo. Depressão e ansiedade também estão associadas à perda de cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com impacto estimado em US$ 1 trilhão na produtividade global.
Para Rios, parte do desafio clínico está em acompanhar mudanças que acontecem entre uma consulta e outra e que nem sempre aparecem de forma clara em uma avaliação pontual.
“Saúde mental não é uma fotografia. É uma trajetória”, afirma.
Entre os recursos previstos está o MBC360, modelo de acompanhamento longitudinal baseado em conceitos de Measurement-Based Care, abordagem que utiliza medidas padronizadas para acompanhar a evolução dos pacientes.
A metodologia foi desenvolvida a partir de discussões entre Rios e o Prof. Christoph U. Correll, professor honorário de Psiquiatria e Neurociência da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos. Os dois mantêm colaboração acadêmica desde o período de mestrado do médico brasileiro e já trabalharam juntos em produção científica.
Na prática, o modelo prevê a aplicação periódica de instrumentos clínicos validados para acompanhar aspectos como humor, ansiedade, sono, sintomas, funcionalidade e qualidade de vida. As informações podem formar uma série histórica e auxiliar o profissional a observar mudanças ao longo das semanas ou meses.
Quando houver indicação clínica e consentimento do paciente, também poderão ser utilizados dados provenientes de dispositivos compatíveis, incluindo informações sobre atividade física, movimentação, sono e determinados parâmetros fisiológicos.
A abordagem tem relação com o campo da chamada fenotipagem digital, que pesquisa o uso de dados produzidos no cotidiano como fonte complementar para análise de alterações comportamentais e funcionais.
Segundo o grupo, essas informações não substituem a avaliação médica nem serão utilizadas para que algoritmos realizem diagnósticos.
O tratamento dos dados estará condicionado à autorização do paciente, ao sigilo médico e às normas previstas pela Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD.
A clínica também prevê acompanhamento conjunto entre diferentes especialidades, de acordo com as necessidades de cada paciente.
A proposta considera a relação entre fatores emocionais, comportamentais e físicos. Alterações persistentes no sono, por exemplo, podem afetar cognição e humor. Quadros de ansiedade e depressão também podem repercutir na alimentação, na prática de atividades físicas, nos relacionamentos e no desempenho profissional.
“Pessoas não chegam até nós divididas em cérebro, corpo, sono, trabalho, família e comportamento. Elas chegam inteiras. Muitas vezes, chegam depois de terem percorrido diferentes lugares tentando resolver separadamente problemas que conversam entre si”, afirma Rios.
A unidade terá ainda uma área destinada à Psiquiatria Intervencionista, especialidade que reúne procedimentos utilizados em situações específicas e após avaliação médica.
Entre os recursos previstos está a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT), técnica não invasiva de neuromodulação que utiliza campos magnéticos para estimular determinadas regiões cerebrais e possui indicações para alguns transtornos psiquiátricos.
Também haverá estrutura para infusão de cetamina, utilizada em pacientes selecionados, especialmente em determinados casos de depressão de difícil tratamento. A indicação depende de avaliação individual e acompanhamento especializado.
A clínica prevê ainda estrutura para administração de terapias infusionais específicas destinadas a pacientes selecionados com doença de Alzheimer, quando houver indicação e observância dos critérios clínicos, regulatórios e de segurança.
Para Rios, esses procedimentos devem fazer parte de um acompanhamento mais amplo.
“Queremos tratar quando necessário, acompanhar ao longo do tempo, educar para ampliar autonomia e utilizar tecnologia com responsabilidade. No centro de tudo continuará existindo uma pessoa, não um diagnóstico”, diz.
O grupo terá ainda uma frente voltada a empresas e instituições, com ações relacionadas a educação, prevenção, capacitação de lideranças e acompanhamento de indicadores coletivos de saúde mental.
A atuação considera fatores como sobrecarga de trabalho, privação de sono, conflitos, assédio, insegurança e baixa autonomia, que podem estar relacionados ao bem-estar e à saúde dos trabalhadores.
Segundo o grupo, informações clínicas individuais não serão compartilhadas com empresas. Os dados relacionados aos pacientes permanecerão submetidos às regras de confidencialidade médica e proteção de informações.
Com início dos atendimentos em 24 de agosto, a unidade do Itaim Bibi passa a concentrar diferentes áreas do cuidado em saúde mental e ferramentas de acompanhamento da evolução clínica.
“A ideia é construir pontes entre essas dimensões e entender o que está mudando ao longo do tempo”, afirma Rios.