Longe do glamour das redes sociais e dos palcos, uma condição neurológica capaz de comprometer a rotina, o trabalho e a qualidade de vida também faz parte da realidade de personalidades conhecidas do público: a enxaqueca.
Muito além de uma simples dor de cabeça, a doença é caracterizada por crises que podem ser intensas e acompanhadas de outros sintomas neurológicos e sistêmicos. Estimativas internacionais apontam que a condição afeta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo e apresenta prevalência significativamente maior entre as mulheres, especialmente durante a fase reprodutiva.
Nos últimos anos, relatos de celebridades brasileiras ajudaram a chamar a atenção para a gravidade do problema. A influenciadora Virginia Fonseca, por exemplo, já compartilhou nas redes sociais episódios de dor e a busca por tratamentos para controlar as crises.
A cantora Paula Fernandes também tornou pública sua experiência com a enxaqueca crônica e os impactos provocados pela doença em sua qualidade de vida e na rotina profissional.
Outro episódio que chamou atenção foi vivido pela modelo e ex-Miss Brasil Jakelyne Oliveira, que precisou de atendimento hospitalar após apresentar um quadro de enxaqueca com aura. Entre os sintomas relatados estavam alterações temporárias da fala e dos movimentos de um dos braços.
Os casos mostram uma face da doença que muitas vezes é desconhecida por quem associa a enxaqueca apenas à dor de cabeça.
Enxaqueca vai muito além da dor
Segundo o neurocirurgião e especialista em dor Dr. Luiz Severo, sintomas como náuseas, sensibilidade à luz e ao som, fadiga e dificuldade de concentração podem acompanhar as crises e comprometer diferentes aspectos da vida do paciente.
“Em minha prática clínica, reforço constantemente que a enxaqueca vai muito além de uma simples ‘dor de cabeça’. Náuseas, fotofobia, fonofobia, fadiga extrema e déficit de concentração acompanham as crises, gerando um impacto devastador na vida pessoal e profissional”, explica.
A condição é cerca de três vezes mais frequente entre mulheres do que entre homens, sobretudo durante a fase reprodutiva. De acordo com o especialista, esse cenário reforça a influência das oscilações hormonais na fisiopatologia da doença.
As consequências também chegam ao ambiente profissional. Pessoas que convivem com crises frequentes podem faltar ao trabalho ou, mesmo presentes, apresentar redução significativa da capacidade de concentração e produtividade fenômeno conhecido como presenteísmo.
Analgésico em excesso pode piorar o problema
O tratamento preventivo da enxaqueca pode envolver diferentes classes de medicamentos, incluindo antidepressivos, anticonvulsivantes e betabloqueadores, de acordo com o perfil clínico e a avaliação médica.
Um dos desafios, entretanto, é a adesão ao tratamento, especialmente quando o paciente apresenta efeitos adversos ou não consegue o controle esperado das crises.
Outro problema é a automedicação.
O uso frequente e indiscriminado de analgésicos pode provocar a chamada cefaleia por uso excessivo de medicamentos, criando um ciclo no qual a tentativa de controlar a dor acaba contribuindo para aumentar a frequência das dores de cabeça e favorecer a cronificação do quadro.
Por isso, crises recorrentes não devem ser tratadas apenas com analgésicos por conta própria. A avaliação médica é importante tanto para confirmar o diagnóstico quanto para descartar outras causas de dor de cabeça.
Jejum, sono ruim e estresse podem funcionar como gatilhos
Embora os gatilhos possam variar de uma pessoa para outra, alguns fatores aparecem frequentemente associados às crises.
Jejum prolongado, privação de sono, estresse crônico, consumo de bebidas alcoólicas e excesso de cafeína estão entre eles. Determinados alimentos ultraprocessados também podem desencadear sintomas em pacientes suscetíveis.
Para Luiz Severo, identificar os gatilhos individuais faz parte do tratamento.
A regularidade do sono, alimentação equilibrada, hidratação, atividade física adequada e manejo do estresse podem integrar uma estratégia preventiva. Em alguns casos, o acompanhamento nutricional também pode ajudar a identificar padrões associados às crises.
Novos tratamentos mudaram o combate à enxaqueca
Além das medidas relacionadas ao estilo de vida e dos medicamentos tradicionalmente utilizados, novas terapias ampliaram as possibilidades para pacientes que apresentam crises frequentes ou dificuldade de resposta aos tratamentos convencionais.
Entre os principais avanços estão os medicamentos que atuam sobre o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina), molécula envolvida nos mecanismos da enxaqueca.
Anticorpos monoclonais como erenumabe, fremanezumabe e galcanezumabe foram desenvolvidos especificamente para interferir nessa via. Dependendo do medicamento, as aplicações podem ser mensais ou trimestrais.
Popularmente chamados por algumas pessoas de “vacina da enxaqueca”, esses medicamentos não são vacinas no sentido tradicional. Trata-se de terapias preventivas direcionadas a mecanismos específicos envolvidos no desenvolvimento das crises.
Toxina botulínica também pode ser utilizada
Outra possibilidade para pacientes com enxaqueca crônica é a toxina botulínica tipo A.
O tratamento segue protocolos específicos, com aplicações em pontos determinados da cabeça e do pescoço. A estratégia é indicada principalmente para pacientes que apresentam 15 ou mais dias de dor de cabeça por mês, respeitados os critérios diagnósticos e a avaliação médica.
“A toxina inibe a liberação de neurotransmissores nociceptivos, apresentando ganhos acumulativos a partir do segundo ou terceiro ciclo”, explica Severo.
A utilização terapêutica é diferente das aplicações realizadas exclusivamente com finalidade estética e deve ser feita por profissional habilitado e com indicação adequada.
Neuromodulação abre caminho para tratamentos não medicamentosos
A medicina também vem avançando no uso da neuromodulação não invasiva, que utiliza diferentes formas de estimulação do sistema nervoso.
Entre as tecnologias estudadas e empregadas estão dispositivos de estimulação de nervos envolvidos na dor, como o trigêmeo e o vago, além de outras modalidades de estimulação não invasiva.
Para determinados pacientes, essas estratégias podem funcionar como complemento ou alternativa aos medicamentos, especialmente quando existem contraindicações, efeitos adversos ou necessidade de uma abordagem combinada.
A indicação, porém, precisa ser individualizada.
Tratamento precisa olhar para o paciente como um todo
Para Luiz Severo, o avanço tecnológico não elimina um dos aspectos mais importantes no controle da doença: compreender a rotina e as características de cada paciente.
“A abordagem moderna da enxaqueca exige mais do que prescrever medicamentos paliativos. Trata-se de educar o paciente, oferecer acompanhamento multidisciplinar e combinar o rigor científico com as tecnologias mais avançadas para interromper o ciclo da dor e restaurar a qualidade de vida”, afirma.
Além de controlar as crises quando elas aparecem, o objetivo atual é reduzir sua frequência e intensidade, evitar a cronificação e devolver ao paciente autonomia sobre a própria rotina.
Dores de cabeça recorrentes, especialmente quando incapacitantes ou acompanhadas de sintomas neurológicos, exigem avaliação médica. Alterações súbitas da fala, força, consciência ou outros sintomas neurológicos novos também não devem ser automaticamente atribuídos à enxaqueca e precisam de atendimento imediato para descartar outras condições potencialmente graves.