Publicidade já não é o único caminho para um influenciador transformar audiência em receita. Lives, programas de afiliados, venda de produtos e social commerce passaram a disputar espaço com as campanhas tradicionais e criaram novas possibilidades para quem trabalha produzindo conteúdo nas redes sociais.
A mudança ganhou força no Brasil com a chegada do TikTok Shop, em maio de 2025. A ferramenta aproximou duas atividades que já faziam parte da rotina digital: assistir a um conteúdo e comprar um produto. Em vídeos e transmissões ao vivo, o creator pode apresentar um item e direcionar a venda sem que o consumidor precise abandonar a plataforma.
Os números ajudam a dimensionar esse movimento. No primeiro ano de operação no Brasil, o GMV médio diário do TikTok Shop cresceu 102 vezes. A média de criadores afiliados ativos, considerando aqueles que fizeram pelo menos uma venda no dia, aumentou 46 vezes. Nas lives, o avanço foi ainda maior em vendas. Entre maio de 2025 e maio de 2026, o número médio diário de transmissões cresceu 20 vezes e o GMV médio diário gerado por elas aumentou 161 vezes.
Para Fábio Trindade, CEO da Aloha Influencer, a expansão dessas ferramentas muda uma lógica que acompanhou o mercado de influência desde seus primeiros anos.
“Por muito tempo, o influenciador foi acostumado a enxergar a publicidade como sua principal forma de ganhar dinheiro. A marca procurava o creator, fechava uma campanha e ele fazia a entrega. Hoje existem outras possibilidades. Ele pode trabalhar com afiliados, participar de lives, vender produtos e desenvolver negócios a partir da audiência que construiu. A publicidade continua existindo, mas não precisa ser a única fonte de receita.”
A dinâmica também exige habilidades diferentes. Em uma campanha tradicional, o conteúdo costuma seguir briefing, prazo e formato definidos previamente. Uma live de vendas acontece em tempo real e coloca o criador diante das dúvidas e reações do público. É preciso apresentar o produto, explicar características, responder perguntas e manter a conversa enquanto as compras acontecem.
O programa de afiliados do TikTok Shop acrescenta outra possibilidade. Criadores podem recomendar produtos em seus conteúdos e receber comissões pelas vendas realizadas. Isso permite que a capacidade comercial de um perfil seja observada também pelo resultado que consegue gerar.
“Esse é um ponto que considero muito importante para o mercado. Nem sempre o creator com mais seguidores será aquele com maior capacidade de venda. Existem perfis menores com uma comunidade extremamente conectada, que acompanha recomendações, participa das lives e confia no que aquele criador apresenta. Quando você começa a olhar para resultado, outras métricas passam a ter peso”, explica Fábio.
Os resultados registrados no Brasil mostram que esse modelo já movimenta valores expressivos. Segundo dados divulgados pelo TikTok, a criadora Lua Blossom ultrapassou R$ 1 milhão em GMV após transformar as lives sobre fragrâncias em sua principal atividade. Vitória Merlos alcançou R$ 2,8 milhões em GMV total, dos quais R$ 2,4 milhões vieram de transmissões ao vivo.
Para Fábio, o crescimento desse mercado também modifica o trabalho das agências de influenciadores. Se o creator passa a ter diferentes possibilidades de receita, a gestão precisa identificar quais delas fazem sentido para cada perfil, considerando público, conteúdo e objetivos profissionais.
“Na Aloha, a gente entende que uma carreira não pode ficar dependente de uma única fonte de receita. Existem influenciadores que funcionam muito bem com publicidade, outros têm uma capacidade enorme de venda em live, alguns podem desenvolver produtos e existem aqueles que conseguem atuar em várias frentes. O trabalho está justamente em entender onde cada creator tem potencial e construir essas oportunidades.”
A transformação também ajuda a explicar por que o mercado começa a observar influenciadores de maneira diferente. Quantidade de seguidores continua sendo um indicador relevante, mas passa a dividir atenção com capacidade de venda, relacionamento com a comunidade, conversão e consistência.
Para quem construiu uma audiência nas redes sociais, a pergunta deixa de ser apenas quantas publicidades consegue fechar. O crescimento do live commerce e dos programas de afiliados acrescenta outra questão à carreira: quantas formas diferentes aquele creator consegue encontrar para transformar influência em negócio.