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Gol libera embarque de Service Dog de menino autista e mãe brasileira comemora: “um avanço que conforta nosso coração”
Golden retriever treinado nos EUA para antecipar crises de Noah acompanha adolescente até na escola e muda vida da família e amigos
12/10/2026 12h09
Por: Renata Rode
Noah e Rafiki: o Service Dog que acompanha o menino em todos lugares e mudou a vida da família e de todos a seu redor. Foto: Arquivo Pessoal

A vida é feita de pequenas escolhas e conquistas que acontecem a cada dia e a família de Noah Siqueira Strauss, de 13 anos, sabe muito bem o que é isso. A vida deles mudou após a chegada de Rafiki, o golden retriever de quatro anos que é um Service Dog, um cão que acompanha o menino o tempo todo. “O Noah foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e, muitas vezes, permanecer em ambientes barulhentos ou com muitos estímulos poderia ser desafiador, se ele não estivesse acompanhado do seu melhor amigo”, detalha Ariellen Siqueira Strauss, mãe de Noah e brasileira de 42 anos que vive há mais de duas décadas em Aspen, nos Estados Unidos.

Treinado pela organização norte-americana 4 Paws for Ability, o cachorro aprendeu a perceber os sinais de que algo não vai bem com Noah, ajudando a evitar, controlar e prevenir crises e promovendo qualidade de vida para o menino e todos à sua volta. Durante o treinamento que durou anos, todos os familiares tiveram que encarar aulas sobre como lidar com o animal e vice-versa. “Passamos por uma prova final depois de muitas aulas e ensinamentos que determina se paciente e cachorro são perfeitos um para o outro. O trabalho é sério. Pessoas saem de lá sem o cachorro e eles fazem outro match até dar certo”.

O Service Dog se tornou tão integrado à comunidade escolar que aparece no anuário entre os integrantes da equipe educativa. Por trás dessa história existe um processo que começou muito antes do cão chegar à família. “Foram aproximadamente três anos entre seleção, treinamento e adaptação, com investimento familiar em torno de US$ 30 mil, incluindo viagens”, detalha.

A mãe afirma que os resultados apareceram também no desempenho escolar. Segundo ela, em dois anos, o adolescente passou de aproximadamente 60% para 95% do tempo dentro da sala de aula regular, ampliando amizades e diminuindo o uso de medicamentos. “Não tem nada de errado com remédios, mas o Noah nunca gostou dos efeitos colaterais e hoje, o equilíbrio da convivência deles traz benefícios não só para a saúde física como também para a saúde mental de Noah e de toda nossa família”.

Companhia concede acesso de Rafiki à cabine e dá exemplo

Em novembro, a família viverá uma aventura: a irmã de Ariellen se casa e todos virão ao Brasil participar da cerimônia. Com passagens previstas pela Gol Linhas Aéreas entre São Paulo e Florianópolis mês que vem, a mãe entrou em contato com a empresa para solicitar a liberação especial garantindo que Rafiki acompanhe Noah dentro da cabine, com todo suporte necessário. Em um primeiro momento, ela teve a resposta negativa e buscou auxilio da repórter que aqui escreve, para acionar o setor de comunicação da empresa. “Trata-se de uma necessidade médica já que ele é um Service Dog que foi realmente foi treinado para antecipar as crises do Noah e tirar ele da situação antes que aconteça. O Rafiki tem estratégias para manter o foco dele e, assim, ele consegue acalmar o menino e manter a situação confortável para todos, possibilitando a inclusão social com segurança”, conta.

Para a felicidade da família, após apresentação de todos os documentos necessários, a Gol Linhas Aéreas e com todo acompanhamento da reportagem, a empresa informou através de sua assessoria de imprensa, que vai conceder o embarque de Rafiki ao lado de Noah na cabine. “A Gol informa que o transporte de cães de assistência a bordo respeita as regulamentações do setor e as especificidades de cada itinerário. Pela legislação brasileira vigente (Lei nº 11.126/2005, Lei nº 13.146/2015 e Resolução nº 280/ANAC), a gratuidade e o embarque na cabine de passageiros são assegurados estritamente para cães-guia que acompanham pessoas com deficiência visual. Contudo, em itinerários que envolvem trechos internacionais em parceria com companhias estrangeiras — como no caso das viagens iniciadas nos Estados Unidos, onde a regulamentação local abrange também cães de serviço e alerta médico (SVAN) —, a Gol realiza uma avaliação especial do histórico e da documentação do voo para assegurar a continuidade da viagem com segurança, seu valor número 1”.  

Ainda, continuando o comunicado, “a Gol informa que no trecho doméstico o transporte do cão de serviço estará assegurado mediante a apresentação da documentação prevista que consta de Carteira de identificação do Service Dog e do usuário; Atestado/Certificado de vacinação antirrábica válido e atualizado; Atestado de saúde do animal emitido por médico veterinário, sendo que, para trechos internacionais ou conexões iniciadas no exterior: documentação oficial de embarque e autorizações do país de origem”. Ariellen confirmou todos os documentos e comemora o desfecho repetindo que esse é um avanço no Brasil.

“Embora o Brasil tenha normas de acessibilidade no transporte aéreo, a regulamentação e o reconhecimento dos diferentes cães de assistência ainda estão em discussão. Em junho de 2026, por exemplo, foi apresentado no Senado o PL 2.933/2026, que propõe um Programa Nacional de Cães de Assistência e prevê um sistema nacional de credenciamento. Na última atualização legislativa disponível, a proposta ainda aguardava despacho”, comenta Glauco Lima, treinador de cães de assistência e alerta médico.

Para o especialista, o desafio é criar mecanismos que ofereçam segurança sem impor obstáculos sucessivos justamente às pessoas que dependem desses animais. “Precisamos combater as fraudes, mas sem transformar a vida da pessoa com deficiência em uma sequência interminável de comprovações. O Service Dog precisa ser reconhecido pelo trabalho que executa e por um sistema que permita verificar essa informação de maneira segura”.

Glauco defende que o país avance para um modelo de identificação e acompanhamento capaz de diferenciar animais efetivamente treinados daqueles apresentados indevidamente como cães de assistência. O sistema poderia reunir informações sobre treinamento, responsável técnico, avaliações comportamentais e identificação do animal, facilitando a conferência por companhias aéreas e estabelecimentos. “O cão de assistência não termina seu treinamento no dia em que recebe uma certificação. Ele precisa manter suas habilidades durante toda a vida de trabalho. Por isso, precisamos pensar em um sistema de acompanhamento e não apenas em um documento emitido uma única vez”, diz.

No caso de Noah, Ariellen relata que a vida deles era uma antes e outra hoje, com a existência do novo membro da família. “Sentimos as diferenças diariamente porque o Rafiki aprendeu a identificar quando meu filho está chegando ao limite antes mesmo que a crise aconteça. Viajar com ele não significa simplesmente levar um cachorro na cabine. Significa levar junto uma ferramenta de autonomia, segurança e inclusão. E é justamente isso que a Gol percebeu e atestou, ao liberar o embarque previamente do Service Dog. Parabéns à empresa e todos os envolvidos”, finaliza a mãe.