O empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, tornou-se centro de um inquérito da Polícia Federal que apura o financiamento de uma rede internacional de exploração sexual iniciada em 2023. Com aportes de ao menos R$ 4,3 milhões, a estrutura contava com intermediários, uma boate na capital paulista e o aliciamento de estrangeiras vulneráveis, incluindo refugiadas de conflitos armados, para encontros com o empresário e seus aliados, conforme apuração de Natália Portinari, do UOL.
A investigação policial examina indícios de tráfico internacional de pessoas, rufianismo e favorecimento da prostituição. Registros de conversas revelam que Vorcaro gerenciava ativamente a operação, definindo contratações, demissões e diretrizes financeiras, contando com a ajuda do promotor de eventos Diogo Batista e do empresário Leonardo Serrano.
Nesses diálogos, as mulheres eram tratadas de forma desumanizadora, sendo referidas como “escravas” e “kengas”. Em certas ocasiões, Batista usava termos como “Escravinha doutrinada”, “Vou já escravizar ela pra hoje e fazer trabalhar pra gente aí” e “Passa a pikinha em geral surubinha. Tinha que ter levado umas escravas”. Para garotas mais jovens, o grupo utilizava o codinome “creche”, levando Vorcaro a comentar: “Nossa creche me consumiu semana toda kkk. Queria ter duas pirocas”.
A situação de vulnerabilidade de uma refugiada ucraniana ficou evidenciada após ter seu custeio suspenso. Vorcaro declarou: “Tem que sobrar alguma refugiada pra mim”. Para manter o domínio sobre essas jovens e dar aparência de legalidade, o grupo debateu a criação de um negócio próprio. Batista argumentou: “Bora colocar elas na agência e daí lavamos as mãos”, reforçando sobre uma das jovens: “1 só. Ela não tem pra onde ir. Estão bombardeando a cidade dela” e “Às vezes tomarei decisões por nós? E ela ainda pode entrar pra nossa agência! Gata e novinha!”. Posteriormente, reforçou a ideia: “Vamos fechar essa agência irmão? Ajuda muito pra segurar essas meninas? daí eu alugo uma casa tbm ou ap grande pela agência! Não fica atrelado à gente!”.
Para viabilizar a fachada formal, Vorcaro adquiriu 50% da Allure Eventos por R$ 1,5 milhão, sob a promessa do parceiro Batista: “Assim estamos blindados!”. O objetivo foi reiterado por Tiago Polo: “O Diogo disse [que] a ideia da agência seria uma forma de ajustar as meninas indiretamente”.
No esquema do grupo, as mulheres eram segmentadas. Em maio de 2024, Batista dividiu o grupo entre o “Time Famiglia A” (para atendimentos de “confiança e surubinha”) e o “Time B” (para “eventos de volume”). Sobre a exploração contínua, o promotor pontuou mais tarde: “Não podemos perder nosso talento que sempre foi operar as gatas? Eu não vou mais cobrar porcentagem das modelos? Sem essa de explorar elas como sempre foi”.
Em outro trecho, discutia-se a jovem apelidada de “Mucilon”. Batista afirmou: “Vou segurar a mucilon pra Famiglia então”, ao que Vorcaro respondeu: “Ela vai ter que entrar pro crime pra ficar”. Mesmo receoso por sua pouca idade, dizendo que “A mucilon mto nova. Tô preocupado”, a festividade ocorreu com um “bolo temático Mucilon” fornecido por Vorcaro, que disse à jovem: “Te ensino tudo”.
A dimensão internacional do esquema contava com o suporte de Serrano, que chamava as contratadas de “flores”. Faturas da SL Consulting para a gestora Moriah Asset somaram cerca de US$ 70 milhões para cobrir custos de eventos. As mensagens deixam explícita a liderança de Vorcaro, com Batista declarando: “Eu e vc somos o time! Vc é o chefe e eu seu Cavaleiro PitBull!” e “Chefe manda e a gente executa”.
Procurados pelo UOL, Serrano e Batista não responderam aos contatos. Já o dono da agência, Felipe Nisti, confirmou conversas iniciais com Vorcaro, mas negou a conclusão do contrato e disse que investigaria a origem do Pix de R$ 500 mil recebido.