Como uma roupa constrói um personagem, representa a cultura de um país ou se torna parte da identidade de um artista? A exposição "O Avesso da Criação" convida o público a investigar essas perguntas em um percurso imersivo pelo universo do figurino. Integrando as comemorações dos 20 anos do Atelier Bruno Oliveira, a mostra reúne trabalhos e processos que conectam teatro musical, Carnaval, concursos de beleza, moda e artes visuais, com uma proposta central: compartilhar conhecimento e despertar novas vocações criativas.
Com mais de 28 anos de atuação de Bruno Oliveira no mercado de figurinos, a exposição transforma essa trajetória em uma experiência de descoberta. Estudantes, artistas, profissionais da moda e visitantes de diferentes idades poderão conhecer o que existe por trás de uma peça: a pesquisa, o conceito, a escolha dos materiais, a modelagem, a construção e os saberes de quem a realiza. O percurso também abre espaço para refletir sobre sustentabilidade, economia criativa e a cadeia de profissionais envolvida nesse trabalho.
A sala Cérebro apresenta o nascimento de um figurino. Croquis, desenhos e referências dividem espaço com tecidos, aviamentos, linhas, bordados e pedrarias em um laboratório de materiais. A modelagem revela outro momento decisivo: depois de nascer como desenho no papel, a ideia retorna ao papel como molde, traduzindo formas imaginadas em uma peça que respeita a anatomia, acompanha o movimento e se adapta a diferentes corpos e funções cênicas. Máquinas de costura e manequins de moulage aproximam o visitante do cotidiano de um ateliê.
A tecnologia amplia essa experiência. Em uma interação com projeção mapeada, o visitante poderá escolher um croqui e acionar sua transformação visual sobre um manequim, acompanhando a passagem do desenho para uma imagem de figurino. O recurso aproxima criação e experimentação e torna visíveis escolhas que, habitualmente, permanecem nos bastidores.
Na sala Arte, a roupa se apresenta como suporte para a criação pictórica. Um vestido inspirado no Carnaval de Veneza reúne máscaras desenhadas e pintadas à mão, posteriormente rebordadas. Outra peça traz, sobre o veludo, rostos das Iabás, orixás femininas, em uma combinação de pintura e bordado. O núcleo inclui ainda um vestido confeccionado pelo Atelier e pintado por Eduardo Kobra, evidenciando como o encontro entre ofícios pode transformar uma peça de vestuário em obra de arte.
O Universo Misses aborda o traje como representação cultural. As criações inspiradas em Tarsila do Amaral e Ayrton Senna, premiadas no Miss Grand International, mostram como arte, memória e símbolos brasileiros podem ganhar expressão em uma apresentação internacional. O núcleo também reúne o figurino inspirado em Stella Maris, associado à Ilha do Mel, no Paraná. São exemplos de como uma roupa pode comunicar pertencimento e identidade e levar referências de um território a públicos de outros lugares.
Na sala Ícones, Elza Soares e Ney Matogrosso conduzem uma reflexão sobre a relação entre figurino e presença artística. As peças mostram como volumes, formas e materiais participam da construção de uma imagem reconhecível e da expressão de um artista em cena. Entre os destaques está o turbante de grandes proporções criado para um ensaio fotográfico de Elza, cuja escala remete à grandeza de sua presença na cultura brasileira.
O Teatro Musical revela o figurino como parte da narrativa e como ferramenta para o trabalho do ator. Em Conserto para Dois, com Cláudia Raia e Jarbas Homem de Mello, o visitante conhece soluções para a agilidade das trocas e a passagem entre personagens. Hairspray, que rendeu a Bruno Oliveira o Prêmio Bibi Ferreira de melhor figurino em musicais, evidencia a força da cor na construção do espetáculo. Já Drácula, com Tiago Abravanel, explora a alteração de proporções e formas do corpo como recurso para criar personagens e sustentar o humor.
O percurso se expande para os universos lúdicos em três ambientes imersivos: uma floresta encantada, Alice no País das Maravilhas e um cenário natalino. Esse núcleo mostra a presença do figurino em festas, eventos corporativos e celebrações sazonais e sua capacidade de dar corpo a mundos imaginários.
Na sala Carnaval, beleza, técnica e movimento se encontram. Os trajes de mestre-sala e porta-bandeira permitem observar a relação entre construção, desempenho e responsabilidade com o pavilhão de uma escola de samba. O núcleo reúne também um recorte da criação da onça de Paolla Oliveira, de ampla repercussão para além do Carnaval, e o universo dos figurinos de rainhas de bateria. A aproximação com a moda aparece na colaboração de Bruno Oliveira com a MISCI para o desfile da marca na Sapucaí, conectando os saberes do Carnaval à criação de uma coleção.
A sala Coração volta o olhar para as pessoas que fazem e vestem essas peças. Fotografias, registros de provas, lembranças e depoimentos de clientes revelam vínculos construídos ao longo do processo. O espaço evidencia a dimensão afetiva do figurino: a expectativa, o trabalho compartilhado e a emoção de ver uma criação ganhar vida em um corpo.
Uma sala de cinema apresenta o documentário sobre Bruno Oliveira e seu Atelier, dirigido por Léo Bambu, ampliando o contato com a trajetória do figurinista por meio de um olhar poético sobre sua história.
Ao final, o público passa da observação à criação. Em um ambiente de ateliê, croquis previamente preparados estarão disponíveis para novas interpretações com tecidos, lantejoulas, paetês e lápis de cor. As produções dos visitantes irão compor um painel coletivo, reunindo diferentes versões das peças vistas na exposição.
Ao abrir seus processos ao público, O Avesso da Criação propõe que o conhecimento circule para além do Atelier. A mostra aproxima o espectador dos ofícios que tornam o figurino possível e convida cada visitante a reconhecer, experimentar e imaginar novas possibilidades para essa linguagem artística.