Em pouco mais de dois anos de mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já acumula R$ 55,5 milhões em gastos com cartão corporativo, segundo levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU). O valor é mais que o dobro do registrado durante todo o governo de Jair Bolsonaro (PL), que somou R$ 27,6 milhões entre 2019 e 2022 — o equivalente a R$ 32,6 milhões, corrigido pela inflação.
A maior parte das despesas atuais está sob sigilo oficial. De acordo com o TCU, R$ 55,2 milhões (99%) não possuem qualquer detalhamento público. Não há informações sobre fornecedores, notas fiscais ou itens adquiridos. A Vice-Presidência segue o mesmo padrão: dos R$ 393,9 mil gastos no período, 92% permanecem sem transparência.
No caso de Bolsonaro, parte dos gastos foi revelada em 2023, após revisão de classificação feita pela Secretaria-Geral da Presidência. Os dados mostraram despesas concentradas em alimentação, com destaque para R$ 312 mil em uma peixaria de Brasília e R$ 15 mil em um único dia em uma lanchonete de São Paulo. Também houve registros em hospedagens, como R$ 1,3 milhão em um hotel no Guarujá, usado em períodos de férias.
O levantamento do TCU provocou reações imediatas no Congresso. Parlamentares da oposição afirmaram que o volume de despesas e a ausência de transparência representam um “retrocesso democrático” e pediram abertura imediata das informações. Líderes do PL e do Novo anunciaram que pretendem acionar o Ministério Público Federal para exigir explicações.
Já aliados do governo defendem que parte do sigilo é necessário por questões de segurança institucional, como viagens oficiais, deslocamentos da Presidência e eventos que envolvem autoridades estrangeiras. Segundo interlocutores do Planalto, os números não refletem aumento de gastos pessoais do presidente, mas sim custos ampliados com estrutura, segurança e eventos oficiais.
Organizações da sociedade civil, como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), cobraram maior abertura dos dados. Para especialistas em contas públicas, a falta de detalhamento dificulta o controle social e alimenta disputas políticas em torno do tema.
O TCU deve encaminhar um relatório ao Congresso nas próximas semanas com recomendações para ampliar a transparência dos cartões corporativos da União.