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Te ensinaram a ser criança?
Confira a crônica de Rudi Ferreira para o Portal Felipeh Campos
25/08/2025 12h16
Por: Rudi Ferreira
Foto-Reprodução/Divulgação

Pense no sentimento mais profundo que existe. Vamos projetá-lo em uma bola e chamá-lo de Wilson? Apesar da “coincidência”, não, não estou falando do filme Náufrago (2000), estrelado por Tom Hanks. Estou falando do seu próximo filho.

No filme, Chuck Noland só pensava em trabalhar. Dava pouca atenção à esposa e aos amigos, até que o fatídico acidente acontece.

Atualmente, nos encontramos em situação semelhante: rodeados por mares de notícias esquisitas, sozinhos em uma ilha de celulares, com poucos ou nenhum amigo, tentando nos salvar sem recursos no deserto de outros seres estranhos que habitam a nossa casa.

No automático, fazemos quase tudo por obrigação. Poucas coisas nos dão prazer ou alimentam a alma. Tudo é rápido e vazio, à mercê do julgamento e da interpretação alheia.

O mundo está doente e carente. Os marmanjos voltaram à fase oral com suas chupetas estilizadas de mau gosto, em “nome da terapia”.
Seres animalescos se identificam como bichos domesticados.
Grupos antivacina aplicam a última picada de uma agulha contaminada pela falta de altruísmo.

E a última bizarrice: crianças, que deveriam ser os infantiloides da vez, sensualizam por likes e dinheiro para alimentarem as contas de supostos cafetões virtuais, sendo objeto de maníacos sem escrúpulos.

Mas calma, hoje temos um herói. Ele não usa toga e não representa o Instituto da Criança e do Adolescente. Também não é defensor público — na verdade, é um youtuber, cujo poder é usar contra o sistema as mesmas ferramentas dos dizimadores da pureza: as redes sociais. Só quero que as próximas fake news não acusem inocentes da morte da sua inocência.

Poxa, será que hoje, do amor, só nos resta o morango?

Mas vamos mudar de filme... digo, de assunto. Chegamos à fase adulta e temos duas pílulas: a vermelha e a azul — a escolha entre a verdade dolorosa e a ignorância feliz.

A pílula vermelha leva à consciência da realidade distópica, controlada por mulheres (ou seriam máquinas?). Já a azul permite continuar vivendo em um mundo de ilusão. Ao decidir, claro, o infeliz ingere a errada.

Novos super-homens frágeis nascem de uma mãe que não cuidou do Tamagotchi, é antivacina e se fazia passar por algum bicho escroto. Então, o ser sagrado, com intelecto de atum, se revolta contra a sua criadora, odiando mulheres do seu mundo real apenas por serem espelhos do próprio ego. Afinal, imagine uma mulher não querer um ser magnífico, que tem carro, dinheiro e toma Campari. Cuja virtude sem cérebro funcional é criticar uma mulher pelo tamanho da sua saia enquanto a deseja.

É... Isso existe.

No fundo, o que essa sociedade de plástico precisa é da fusão desses diversos mundos. Isso mesmo: os idiotas precisam ser ouvidos, para que haja um senso comparativo que separe os reais daqueles que estão do outro lado da força. Desculpa, misturei mais um filme.

Eu reclamo, mas sei que existe mais gente boa do que as citadas acima. Basta sair da desgraça automática e observar além da imposição daqueles que almejam lucrar com o caos.

Meninas ainda brincam com bonecas de pano, que têm cheiro, textura e trazem lembranças de uma avó ou tia. E, mesmo com a passagem dessa fase, saberão que aproveitaram a infância sem medo de crescer.

Adolescentes ainda falam sobre seus sentimentos e, mesmo que feios, revelam algo bonito dentro de si. Algo a oferecer além da casca vazia imposta pela beleza do olhar alheio.

Adultos que sabem respeitar, dialogar e interpretar. Que não julgam a ponto de descartar quem pode fazê-los felizes com um sorriso e um simples “bom dia”.

Fure a bolha e seja o homem que conversa de igual para igual, independentemente da genitália do ouvinte.

Seja a pessoa que adota um cachorro sabendo que ele não é da mesma espécie, mas que, mesmo assim, oferece carinho genuíno.

E, principalmente, seja uma mãe (biológica ou não) que falhou. Porque a vida é isso: feita de acertos imperfeitos e da coragem de mostrar o caminho a seguir. O caminho das broncas saudáveis e necessárias que constroem caráter, das conversas que criam vínculos e critérios. Pois, quando seu filho for alguém que deu mais risadas do que likes, que se frustrou, mas progrediu, saiba: Sim, o seu papel foi cumprido.

O protagonista do primeiro filme usou uma bola para não enlouquecer. Hoje, quem ainda tem sanidade apenas observa aqueles que já sucumbiram.

Quando Chuck voltou, sua esposa estava casada com seu dentista. Ele tentou resgatar um passado que não mais existia, pois já havia “falecido” para a sociedade.

Até ele, que passou anos isolado, soube que a vida seguiu, pois fez questão de se salvar. Afinal, não é difícil ter compromisso e comprometimento. Difícil é fingir querer sair da ilha enquanto grita baixinho por socorro.

Infelizmente, por N motivos, vivemos rodeados de parasitas que nos sugam. Esses gritos falsos ecoam, mas logo essas ondas passarão, como qualquer outra. Inclusive a do Tamagotchi e do morango do amor.

E você? Tomou a pílula certa e ainda acredita que encontrará algo real nessa Matrix com homens de plástico e mães de bebês de borracha?

Ainda bate algo aí ou já doou o que tinha para uma bola?
Virou um bicho e regressou à chupeta?
O que você faz pelo próximo: é virtude ou dever?

Eu não quero mais bebês de borracha, nem essa sociedade de plástico.

É hora de viver uma nova moda: a nossa!