O renomado jornal norte-americano The New York Times analisou a recente condenação do ex-presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, destacando que o país obteve êxito em um aspecto onde os Estados Unidos encontraram dificuldades. O artigo, de autoria de Steven Levitsky (coautor de "Como as Democracias Morrem" e professor em Harvard) e Filipe Campante (professor da Johns Hopkins University), qualificou a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) como "histórica".
Os autores enfatizaram que Bolsonaro e seus coacusados "tramaram contra a democracia e tentaram um golpe após a derrota nas urnas em 2022". Ressaltaram ainda que, a menos que os recursos da defesa prosperem – o que consideram "improvável" –, Bolsonaro se tornará "o primeiro líder golpista na história brasileira a cumprir pena".
"Esses eventos divergem radicalmente dos Estados Unidos", observam Levitsky e Campante. Eles apontam que Donald Trump, que também buscou reverter um resultado eleitoral, não foi para a prisão, mas sim "de volta à Casa Branca". Os autores citam que Trump, possivelmente percebendo a discrepância, rotulou as acusações contra Bolsonaro como "caça às bruxas" e classificou a condenação como "algo muito, muito ruim".
O artigo também recorda que Trump, em um esforço para defender sua própria democracia, impôs uma tarifa de 50% sobre a maioria das exportações brasileiras e aplicou sanções a diversos funcionários do governo e ministros do STF, incluindo o ministro Alexandre de Moraes, sob a Lei Magnitsky Global. Os autores interpretam que o governo dos EUA "pune os brasileiros por fazerem algo que os americanos deveriam ter feito, mas não fizeram: responsabilizar um ex-presidente por tentar anular uma eleição".
Levitsky e Campante comparam as inclinações autoritárias de Trump e Bolsonaro, observando que "ambos os países elegeram presidentes com instintos autoritários que, após perderem a reeleição, atacaram instituições democráticas para permanecerem no poder". Criticaram a forma como os EUA lidaram com o desrespeito às suas próprias instituições, afirmando que os "renomados freios constitucionais do país falharam em responsabilizar Trump por sua tentativa de reverter a eleição de 2020".
Segundo os autores, essas "falhas institucionais tiveram um alto custo". Eles descrevem um segundo governo Trump como "abertamente autoritário", com uso instrumentalizado de agências governamentais para perseguir críticos, ameaçar rivais e intimidar setores da sociedade. "Menos de nove meses após o segundo mandato de Trump, os Estados Unidos provavelmente já cruzaram a linha do autoritarismo competitivo", alertam.
Os autores relembram o histórico de ditadura militar no Brasil e destacam que "as autoridades públicas brasileiras perceberam uma ameaça à democracia desde o início da presidência de Bolsonaro". "Muitos juízes e líderes do Congresso viram a necessidade de defender energicamente as instituições democráticas de seu país", afirmam. Citam uma declaração do Ministro Moraes a um deles: "Percebemos que poderíamos ser Churchill ou Chamberlain. Eu não queria ser Chamberlain".
A condenação de Jair Bolsonaro e outros sete réus pelo STF, por 4 votos a 1, ocorreu devido a conspiração contra a democracia e tentativa de golpe após sua derrota eleitoral em 2022. Bolsonaro foi sentenciado a 27 anos de prisão pelos crimes de tentativa de golpe de Estado, organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.