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Entenda como projeto de anistia pode 'empacar' na Câmara dos Deputados
Resistência de PT e PL trava negociações e reforça a estratégia de Hugo Motta de controlar o ritmo da Câmara
07/10/2025 12h09
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos
Câmara dos Deputados - Reprodução: Luis Macedo

O parecer sobre a anistia, apresentado pelo deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), alcançou um feito surpreendente: conseguiu alinhar, ainda que por razões divergentes, as duas maiores bancadas da Câmara — o Partido Liberal (PL), de Jair Bolsonaro, e o Partido dos Trabalhadores (PT), de Luiz Inácio Lula da Silva. Ambos os grupos se encontram no mesmo lado do debate, defendendo o impedimento do avanço da proposição.

Divergências no Bloqueio

Enquanto a base governista (PT) rejeita categoricamente qualquer concessão que possa suavizar a situação dos bolsonaristas condenados pelos atos de 8 de janeiro, a oposição (PL) reclama que o texto é insuficiente. Para os aliados do ex-presidente, a diminuição de sanções não resolve a questão; o que eles almejam é o perdão total.

Diante deste cenário de impasse, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), utiliza a gestão do tempo como ferramenta. Ele prefere concentrar as tratativas, permitindo que Paulinho da Força despenda esforços em busca de um consenso, enquanto, simultaneamente, agrada a ambos os lados do espectro político.

A Estratégia da Liderança e Seus Reflexos

Essa tática gera um custo político: irrita tanto o governo quanto a oposição, que interpretam a manobra como uma forma de o comando da Casa manter o controle da agenda e evitar um novo desgaste após a recente turbulência causada pela PEC da Blindagem.

A dificuldade em conciliar as exigências de quem apoia e de quem se opõe ao governo dificulta qualquer possibilidade de acordo. Paulinho da Força tenta formular uma redação de meio-termo, mas não encontra apoio. Uma parcela dos parlamentares acredita que a proposta, mesmo reformulada, perderá sua utilidade diante da resistência firme dos dois principais blocos.

Enquanto isso, o presidente da Casa administra o ritmo das votações. A decisão de não levar o texto a plenário de imediato confere-lhe tempo para observar a movimentação das bancadas e avaliar o preço político de cada passo. A cada semana sem deliberação, diminui-se a pressão sobre o plenário e mantém-se sob controle uma matéria que poderia provocar divisões internas.

Em essência, a lentidão no processo cumpre vários objetivos: oferece ao relator um prazo para explorar alternativas e assegura à liderança da Câmara o domínio sobre o cronograma político. A grande questão não é mais se o projeto será aprovado, mas por quanto tempo Hugo Motta pretende mantê-lo paralisado.

Diálogo, mas Sem Concessões

Recentemente, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, reuniu-se com o relator para discutir a redação da anistia. No entanto, o deputado Paulinho da Força manteve sua posição.

“Continuo defendendo a minha ideia de apresentar o relatório nessas condições (de redução de penas). O relatório é um negócio muito simples. Eu tenho brincado [dizendo] que meu relatório não é o voto do Fux. É um negócio curto e grosso de mexer em duas ou três penas e com isso pacificar o país”, declarou Paulinho.

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), retrucou: “Vamos continuar insistindo que a redução de penas não resolve o problema. Pessoas já cumpriram um sexto da pena. O que cabe é anistia, mas jamais nos fecharemos ao diálogo”, argumentou.

O PT também buscou o diálogo com Paulinho da Força para debater o conteúdo do projeto. Segundo o líder da bancada petista, Lindbergh Farias (RJ), o encontro foi cordial, mas infrutífero. A postura do partido permanece inalterada: rejeição total a qualquer modalidade de anistia ou diminuição de sanção, especialmente em situações que envolvam o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Com a oposição simultânea de PT e PL, o relator tenta resguardar alguma margem para negociações pontuais, embora o seu espaço de manobra política esteja em constante diminuição.