Elas usam hábitos brancos e véus, seguem os ciclos da lua e iniciam o dia com meditação. No entanto, em vez de hóstias e rosários, lidam com folhas de cannabis. São conhecidas como as “freiras da maconha”, um grupo de mulheres norte-americanas que encontrou na planta uma forma de cura, ativismo e espiritualidade.
As Sisters of the Valley — ou “Irmãs do Vale”, em tradução livre — vivem em Merced, no Vale Central da Califórnia (EUA). A comunidade foi criada há quase dez anos pela ativista Sister Kate, com o objetivo de unir espiritualidade, empoderamento feminino e medicina natural.
Apesar do visual religioso, as integrantes não pertencem a nenhuma ordem católica. O grupo segue uma filosofia própria, baseada em princípios de respeito à natureza e ao ciclo lunar. “Nosso trabalho é espiritual, não religioso”, costuma afirmar Sister Kate, em entrevistas.
A rotina das irmãs começa ao amanhecer, com orações e cânticos. Em seguida, dedicam-se ao cultivo da maconha em estufas próprias, sempre de acordo com o calendário lunar — prática que, segundo elas, potencializa o poder de cura das plantas.
Com os extratos de CBD (canabidiol, substância sem efeito psicoativo) e pequenas doses de THC (composto que provoca alterações de consciência), produzem pomadas, óleos e tinturas.
Os produtos são vendidos pela internet e enviados para diferentes países, dentro dos limites legais. A renda é reinvestida na manutenção da comunidade e em projetos sociais.
“Não buscamos recreação, buscamos alívio e equilíbrio. Cada frasco é feito com intenção, oração e ciência”, afirmam as irmãs no site oficial do grupo.
A fama das “freiras da maconha” ultrapassou as fronteiras do movimento canábico. O grupo inspirou o enclave fictício das “Irmãs do Bravo Castor”, retratado no novo filme de Paul Thomas Anderson, Uma Batalha Após a Outra.
Na trama, freiras cultivam maconha nas colinas da Califórnia e acolhem pessoas em fuga das autoridades. Após o lançamento, as verdadeiras Irmãs do Vale comemoraram a homenagem nas redes sociais. “Estamos profundamente honradas por termos sido convidadas a fazer parte desta obra. Não poderíamos estar mais orgulhosas de sua mensagem e legado”, escreveram em uma publicação acompanhada por fotos do set de filmagem.
O grupo também atua na militância pela legalização e desmistificação do uso medicinal da maconha. As irmãs defendem que o debate sobre a cannabis deve ser tratado com base científica e ética, e não com preconceitos religiosos ou morais.
Nos Estados Unidos, o uso medicinal da maconha é permitido em 38 estados, mas ainda enfrenta resistência em parte da população. As “freiras” se tornaram símbolo de um novo ativismo: um feminismo espiritual e verde, que une tradição, ciência e fé em nome da cura. “Não estamos contra a Igreja, estamos a favor das mulheres, da natureza e da verdade”, resume Sister Kate.
As “freiras da maconha” já inspiraram grupos semelhantes no Canadá, no México e até em países da Europa. Mesmo enfrentando restrições legais, elas seguem firmes na missão de transformar o estigma em cuidado.
De véu e terço, mas com as mãos na terra e o olhar voltado à cura, as Irmãs do Vale continuam cultivando mais do que plantas — cultivam uma nova forma de fé e resistência.