O magistrado Alexandre de Moraes, integrante do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nessa quinta-feira (16) o reinício da averiguação sobre uma suposta interferência do ex-presidente, Jair Bolsonaro (PL), na Polícia Federal. A deliberação foi tomada mediante solicitação da Procuradoria-Geral da República (PGR), que defendeu a necessidade de novas diligências no caso.
A investigação teve início em abril de 2020, logo após o então Ministro da Justiça, Sergio Moro, deixar o governo Bolsonaro, acusando o ex-presidente de tentar influenciar mudanças nos postos de comando da corporação policial — incluindo a destituição do diretor-geral à época, Maurício Valeixo. O episódio constituiu o primeiro procedimento aberto contra Bolsonaro durante seu período presidencial, mas encontrava-se arquivado desde 2024.
Na ocasião, a vice-procuradora-geral, Lindôra Araújo, havia se manifestado pela conclusão dos inquéritos, alegando ausência de provas de delito. Com a ascensão de Paulo Gonet ao comando da PGR, em 2024, o órgão modificou seu posicionamento e defendeu a retomada das apurações, sustentando haver “indícios que merecem verificação mais ampla”.
“A análise dos autos indica a necessidade de diligências complementares para possibilitar um juízo mais abrangente sobre os fatos investigados”, escreveu Gonet.
Conexão com Outros Processos Investigativos
A PGR requereu que a Polícia Federal compare o material já coletado com evidências reunidas em outras investigações, englobando o inquérito que averigua a tentativa de golpe de Estado e o uso indevido de estruturas da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e do GSI (Gabinete de Segurança Institucional). Conforme o Procurador-Geral, existem sinais de que os mesmos mecanismos teriam sido empregados para adquirir informações confidenciais e exercer pressão sobre autoridades.
O novo parecer técnico indica que as modificações no corpo diretivo da PF “possivelmente tiveram como real motivação a obtenção de dados privilegiados sobre investigações que envolviam o então presidente, seus familiares e aliados políticos”.
Acusações de Moro
Ao apresentar seu pedido de exoneração em 2020, Sergio Moro imputou a Bolsonaro a intenção de intervir diretamente na força policial e de impor o desligamento de Valeixo. Segundo seu relato, o antigo líder executivo buscava acesso a relatórios de inteligência que não estavam legalmente disponíveis a ele. Comunicações trocadas entre os dois sugerem que Bolsonaro pressionava para controlar a direção-geral e as superintendências da Polícia Federal nas capitais Rio de Janeiro e Pernambuco.
Imediatamente após notificar Moro sobre a dispensa de Valeixo, Bolsonaro encaminhou ao então ministro uma matéria jornalística com a seguinte manchete: “PF na cola de 10 a 12 deputados bolsonaristas”.
Situação Atual do Ex-Presidente
Atualmente, Jair Bolsonaro cumpre confinamento domiciliar desde 4 de agosto, após ter sido condenado pela Primeira Turma do STF a 27 anos e três meses de reclusão por crimes relacionados à tentativa de subversão do regime e à participação em organização criminosa armada.
A reabertura do procedimento investigativo intensifica o cerco judicial ao ex-chefe de Estado, que permanece sob escrutínio em diversas frentes de apuração no Supremo Tribunal.