O desafio era imenso: revisitar a maior novela da teledramaturgia brasileira. Mas o remake de "Vale tudo", escrito por Manuela Dias e dirigido por Paulo Silvestrini, terminou como um dos experimentos mais desastrosos da história recente da Globo. A promessa de atualizar a pergunta “Vale a pena ser honesto no Brasil?” se perdeu em um mar de superficialidades e incoerências.
A nova versão começou fiel ao texto original de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, mas rapidamente mergulhou no caos. Personagens perderam sentido, arcos dramáticos se esfarelaram e a crítica social — alma da novela em 1988 — desapareceu. O que antes era uma reflexão sobre moralidade virou um desfile de temas rasos jogados ao vento: assexualidade, vício em jogos, racismo, burnout, etarismo… tudo mencionado, nada desenvolvido.
A autora preferiu o modismo à substância. O resultado foi um roteiro que parecia escrito semana a semana, sem propósito e sem emoção. Até o dilema ético de Ivan (Renato Góes), que sustentava a trama original, virou um aparato morno. E Raquel, interpretada com garra por Taís Araujo, foi boicotada por um texto que a reduziu a figurante de sua própria história.
A direção também naufragou. Cenas decisivas sofreram com a falta de impacto, e o auge do constrangimento veio com o assassinato de Odete Roitman — uma sequência tão absurda que beirou a paródia. E, como se não bastasse, a vilã ainda ressuscitou com uma explicação tão estapafúrdia que virou meme instantâneo.
Mesmo com um elenco talentoso — destaque para Debora Bloch, Malu Galli, Belize Pombal, Karine Teles, Cauã Reymond e Ricardo Teodoro —, a obra foi incapaz de esconder a fragilidade da escrita e pouco valorizou as atuações.
Na média, superou sua antecessora, "Mania de você", mas ficou muito aquém do último remake produzido para o horário, "Pantanal". Comercialmente, lucrou. Artisticamente, fracassou.
No fim, a verdade é uma só: Manuela Dias transformou a trama mais inteligente da TV em um drama genérico. De "Vale tudo", sobrou apenas o título — porque, na prática, foi uma barbárie.