Há filmes que surgem mansos, como quem pede licença para entrar, e, de repente, se instalam na cabeça da gente com a força de um vendaval. "O agente secreto", de Kleber Mendonça Filho, é um deles. A história começa com a volta silenciosa de um homem ao seu lugar de origem — e basta esse retorno aparentemente simples para que tudo ao redor comece a pulsar com uma tensão quase invisível. Wagner Moura, em mais uma de suas atuações que dispensam qualquer firula, carrega no olhar um passado que o filme insiste em esconder, mas que teima em transbordar.
Mendonça Filho, que nunca foi tímido quando o assunto é brincar com gêneros, transforma um thriller político enraizado nos anos 1970 em uma reflexão sobre como a normalidade pode ser a maior das perversões em tempos sombrios. Entre investigações, perseguições e silêncios desconfortáveis, o cineasta abre espaço para um toque de realismo fantástico — não como fuga, mas como lembrança de que o Brasil sempre foi um país onde o absurdo encontra moradia.
É aí que entra a lenda da perna cabeluda, criatura folclórica que, nas mãos do diretor, ganha vida própria e protagoniza algumas das sequências mais inventivas do longa. Entre um susto e outro, é impossível não perceber o prazer de Mendonça Filho em filmar algo tão delirante quanto assustador.
Mas nenhum desses elementos funcionaria sem o elenco que sustenta essa Recife distorcida. Moura conduz a história com a precisão de quem entende que seu personagem vive sempre à beira da explosão, tentando parecer inteiro. Ao redor dele, uma constelação de coadjuvantes ilumina as rachaduras do regime autoritário: um delegado seguro de sua própria impunidade (Robério Diógenes), um jovem matador que atua ao lado do padrasto (Gabriel Leone) e a figura luminosa da atriz Tânia Maria — que, em sua interpretação, carrega nos gestos contidos o cansaço e a esperança de todos os que precisam sobreviver.
Se há algo a questionar, talvez seja seu tempo de duração — são quase três horas, ainda que imperceptíveis. Mesmo assim, isso não reduz o impacto da narrativa, que já se anuncia como relevante no circuito internacional, especialmente pelos prêmios deste ano no Festival de Cannes: melhor ator e melhor direção.
No que diz respeito a Hollywood, sempre ávida por surpresas, Moura aparece citado por diversos especialistas como um nome forte na corrida pelo Oscar, marcado para 15 de março de 2026. Aliás, algumas publicações dão como certa sua vitória — assim como apostam na indicação do longa a melhor filme internacional, em uma lista acirrada que inclui um concorrente notável: o norueguês "Valor sentimental", de Joachim Trier.
O que já se pode afirmar, sem titubear, é que "O agente secreto" não se contenta em ser apenas bom: ele provoca, incomoda, instiga, diverte e, quando finalmente termina, deixa suas cenas cravadas na mente por dias. E é justamente aí que mora sua grande magia.