A América Latina atua apenas como um terreno secundário para as ambições de Washington, permitindo que os Estados Unidos moldem o destino das nações vizinhas segundo suas conveniências?
Essa indagação norteia as investigações da intelectual e repórter do Reino Unido, Grace Livingstone, que assina a obra America's Backyard: The United States and Latin America from the Monroe Doctrine to the War on Terror ("O Quintal da América: Os EUA e a América Latina, da Doutrina Monroe à Guerra ao Terror", em tradução livre).
Estabelecida em 1823 sob a gestão de James Monroe, a diretriz original postulava que qualquer ingerência de monarquias europeias nas Américas seria interpretada pela Casa Branca como um risco à integridade nacional estadunidense.
Já no final do século 20, Theodore Roosevelt revitalizou esse conceito, defendendo o direito dos EUA de monitorar países regionais incapazes de manter a ordem interna ou honrar compromissos globais. Essa postura, batizada de "corolário Roosevelt", materializava o lema pessoal do líder: "fale com suavidade e tenha à mão um grande porrete, assim você irá longe".
Os recentes eventos na Venezuela sob a gestão de Donald Trump — incluindo o ataque aéreo sobre Caracas e a detenção de Nicolás Maduro — expuseram uma vertente inédita desse pensamento, que Livingstone e outros estudiosos denominam "corolário Trump". Há quem utilize o termo "Doutrina Donroe" para fundir os nomes do atual mandatário e de Monroe.
Embora o próprio governo tenha mencionado a doutrina clássica em seu planejamento de segurança, Livingstone destaca que a versão contemporânea rompe com o passado.
"Os EUA abandonaram qualquer pretensão de que isso tenha sido feito pelo bem da democracia", assevera a pesquisadora da Universidade de Cambridge em diálogo com a BBC News Brasil.
Para ela, a diferença reside no propósito:
"Até mesmo o corolário Roosevelt dizia que os EUA desempenhariam, se necessário, o papel de uma força policial internacional. [A ação na Venezuela] não tem nada a ver com defender o Estado de Direito ou o sistema internacional", aponta a britânica. "É uma defesa direta dos interesses dos EUA, para controle de recursos e dos interesses das empresas americanas. É muito mais explícito".
Reforçando essa postura, o Departamento de Estado veiculou recentemente uma imagem de Trump com um texto que evoca o domínio regional: "Este é o NOSSO hemisfério, e o Presidente Trump não permitirá que nossa segurança seja ameaçada."
A grande virada geopolítica, contudo, é o destinatário do aviso. Se antes o bloqueio visava a Europa colonizadora, agora o foco é conter o avanço da China, cujo capital sustenta grande parte do crescimento latino-americano atual.
"A China é uma das maiores preocupações de segurança do governo Trump. Eles veem a China como a maior ameaça e o maior concorrente", explica Livingstone. "Esta é uma mensagem muito clara de que eles querem a China fora de sua esfera de influência".
Apesar da agressividade, o novo corolário apresenta nuances inacabadas devido a choques de visão dentro da equipe de Trump.
Marco Rubio: O Secretário de Estado lidera uma ala doutrinária, focada em derrubar regimes em Cuba, Nicarágua e Venezuela.
Donald Trump: O presidente parece priorizar uma ótica pragmática e mercantilista, visando expandir o alcance de corporações norte-americanas e disposto a pactuar com governos de qualquer espectro político, desde que financeiramente vantajoso.