A morte brutal do cão comunitário Orelha, em Florianópolis, acendeu um alerta entre especialistas sobre a influência da radicalização online e de comunidades digitais violentas frequentadas por crianças e adolescentes. Segundo o portal DCM, investigadores e pesquisadores afirmam que a tortura e a morte de animais são práticas recorrentes nesses ambientes virtuais, associadas ao chamado zoosadismo, termo que define o prazer em praticar ou assistir a crueldade contra animais.
Orelha foi encontrado agonizando no dia 4 e levado a uma clínica veterinária, onde um laudo indicou a necessidade de eutanásia. O caso ganhou repercussão nacional após a Polícia Civil apontar quatro adolescentes como suspeitos das agressões. A defesa de dois deles sustenta que não há imagens que comprovem o momento exato do ataque, embora as investigações sigam em andamento.
Apesar de a Polícia Civil de Santa Catarina afirmar que não identificou, até o momento, influência direta de comunidades virtuais de ódio no caso, especialistas enxergam semelhanças com padrões já observados em outros episódios. Para o procurador Fábio Costa Pereira, coordenador do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema do Ministério Público do Rio Grande do Sul, a morte de Orelha não deve ser vista como um fato isolado:
O zoosadismo é um grande marcador da mobilização à violência. O Orelha é só a ponta do iceberg.
Segundo Pereira, essas comunidades digitais costumam reunir práticas ainda mais graves, como incentivo à automutilação, ao suicídio, à pedofilia e à sextorsão. Ele explica que muitos jovens são recrutados nesses espaços e passam a integrar grupos organizados que compartilham conteúdos extremos, promovem desafios violentos e estimulam a competição por notoriedade dentro dessas redes.
Outro episódio recente reforçou o alerta: a morte do cão Abacate, em Toledo, no Paraná. A Polícia Civil do estado afirmou que o animal foi morto de forma intencional, embora a motivação ainda não tenha sido esclarecida. Para especialistas, casos como esse mostram como a violência contra animais vem se repetindo em diferentes regiões do país.
A delegada Lisandrea Salvariego Colabuono, do Núcleo de Operações e Articulações Digitais da Polícia Civil de São Paulo, afirma que integrantes dessas redes chegam a matar entre oito e dez animais por noite, muitas vezes transmitindo os atos ao vivo para centenas de espectadores. Segundo ela, o zoosadismo faz parte de um processo de dessensibilização que, posteriormente, é transferido para a violência contra pessoas.
No caso de Orelha, a delegada avalia que os adolescentes podem ter reproduzido comportamentos vistos ou estimulados no ambiente virtual. À frente do núcleo há quase dois anos, Lisandrea afirma que centenas de crianças e adolescentes já foram salvos de indução ao suicídio:
É um problema geracional. A violência contra animais está escalando, e alguém precisa fazer alguma coisa.