A comoção pela morte do cão comunitário Orelha, brutalmente agredido na Praia Brava, em Florianópolis, também abriu espaço para um debate sensível nas redes sociais: o uso do termo “psicopatas” para se referir aos adolescentes suspeitos do crime. Em entrevista ao portal Uol, especialistas em saúde mental alertam que a classificação é tecnicamente inadequada e pode gerar consequências graves.
Orelha morreu após sofrer lesões severas e passar por eutanásia. Outro cachorro, Caramelo, também foi alvo de agressões, mas sobreviveu e acabou adotado pelo delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina. Quatro adolescentes são investigados por ato infracional. Dois deles estavam nos Estados Unidos em viagem programada antes do crime e devem retornar ao Brasil para prestar depoimento.
Segundo psiquiatras, o termo “psicopata” não se aplica a menores de idade. A explicação está no desenvolvimento do cérebro: o córtex pré-frontal, responsável pelo controle de impulsos, empatia e tomada de decisões, só termina de se formar entre os 21 e 25 anos. Por isso, a psiquiatria não fecha diagnósticos de personalidade nessa fase da vida.
O enquadramento clínico mais adequado, quando há padrões persistentes de agressividade, é o chamado Transtorno de Conduta. Ainda assim, trata-se de um diagnóstico que exige avaliação criteriosa e acompanhamento contínuo. “Rotular um adolescente como psicopata é cientificamente errado e socialmente perigoso. Isso gera a síndrome do fracasso inevitável, como se o jovem estivesse fadado ao crime”, afirma Luiz Zoldan, psiquiatra do Hospital Albert Einstein.
A crueldade contra animais, como no caso de Orelha, é considerada um sinal de alerta importante dentro desse transtorno. Mesmo sem rótulos definitivos, especialistas destacam que comportamentos agressivos deliberados e ausência de remorso exigem resposta rápida do poder público e da saúde mental.
Outro ponto destacado é a influência do grupo. Médicos explicam que adolescentes tendem a buscar aprovação social e podem cometer atos em bando que não praticariam sozinhos, como desafios, rituais de pertencimento ou competições de coragem.
O ambiente familiar também pesa nesse processo. “As crianças aprendem o que é normal observando o mundo ao redor. Se a violência é banalizada no entorno, ela acaba sendo internalizada”, explica Flavia Zuccolotto, psiquiatra do Hospital Oswaldo Cruz.
Para os especialistas, o foco do debate deve sair do rótulo e se concentrar na intervenção imediata. Acompanhamento psicológico, avaliação psiquiátrica e medidas socioeducativas são apontados como fundamentais para tentar interromper trajetórias de risco e evitar que episódios de violência se repitam.