Na madrugada de 3 de janeiro, uma incursão militar dos Estados Unidos culminou na detenção de Nicolás Maduro, alterando drasticamente o tabuleiro geopolítico da América do Sul. Um mês após o evento, a gestão de Donald Trump mantém o país vizinho sob vigilância rigorosa, alternando entre retórica agressiva e manobras estratégicas que impedem a Venezuela de sair do radar de Washington.
A nação vive hoje sob um véu de incertezas. No comando interino está Delcy Rodríguez, figura central do antigo governo. Enquanto isso, a riqueza que é a bênção e a maldição do país — o petróleo — permanece no centro da disputa. Sem soluções imediatas para o colapso humanitário, a pergunta que fica é: como a Venezuela chegou a este abismo?
Para a professora Carolina Pedroso (Unifesp), especialista em relações internacionais, a intervenção estrangeira apenas distanciou o país de uma saída soberana. Ela explica que, embora Maduro tenha sido removido, o esqueleto do "chavismo" permanece. Esse movimento, iniciado por Hugo Chávez em 1999, moldou a identidade venezuelana através de um nacionalismo militar e foco social.
A crise atual tem ecos no passado. O "Caracazo" de 1989, um levante popular contra a carestia, foi o berço político de Chávez. Após uma tentativa frustrada de golpe em 1992 contra Carlos Andrés Pérez, ele se tornou um símbolo de esperança para os desassistidos, vencendo as eleições de 1998.
“O que ele propunha no início era, basicamente, compreender que sendo a Venezuela um país tão rico em petróleo, essa riqueza deveria ser acessível a todas as pessoas. Então, a principal plataforma dele era realmente fazer um combate frontal à desigualdade social por meio da riqueza do petróleo”, detalha a acadêmica.
O ponto de mutação do regime ocorreu após o golpe de Estado que sequestrou Chávez por 47 horas em 2002. Ao retornar ao poder, o líder abandonou a moderação. Segundo Carolina, ele percebeu que a oposição não jogaria dentro das regras democráticas.
“Chávez percebeu que essa oposição não está disposta a aceitar os termos democráticos, aceitou uma saída que não era institucional para tirá-lo do poder, então ele começa a radicalizar o movimento. Essa é uma questão fundamental para a gente compreender como a Venezuela chegou onde ela está agora. Não foi um processo que foi sempre assim, ele foi sendo modificado ao longo do tempo”, pontua Carolina.
Essa radicalização levou ao "expurgo" na estatal petrolífera, substituindo técnicos por aliados políticos. O resultado foi uma queda irreversível na eficiência produtiva.
“É um fator que nos ajuda a compreender a conjuntura atual da questão da pobreza, da desigualdade que retornou, da crise humanitária, da fuga das pessoas de lá, da crise migratória… Tudo isso tem a ver também com essa incapacidade de gerenciar o setor petroleiro de forma mais assertiva. A gente está falando do país com as maiores reservas do mundo, mas que não tem níveis de produtividade compatíveis com essa quantidade de petróleo”, explica a professora.
O modelo chavista sustentou-se por uma década, erradicando o analfabetismo e reduzindo o déficit habitacional. Contudo, a falta de investimento e a morte de Chávez em 2013 entregaram a Maduro um país prestes a implodir. Sob seu comando, a Venezuela mergulhou no autoritarismo e na militarização da máquina pública.
“O processo do chavismo tem essas duas grandes fases. Um período mais próspero, mais democrático, mais aberto, e que depois, até pelas suas contradições, suas falhas e por questões externas, também acabou entrando numa rota cada vez mais problemática”, pontua Pedroso.
Acusado por Washington de narcoterrorismo e tráfico de armas, Maduro aguarda depoimento marcado para março, alegando ser um “prisioneiro de guerra”. Enquanto isso, Donald Trump celebra a operação como "tecnicamente perfeita", ignorando as baixas locais (incluindo 32 cubanos e 23 militares venezuelanos).
A gestão do petróleo agora passa pelo crivo norte-americano. Com vendas recentes gerando US$ 500 milhões através da Citgo, o controle financeiro reside em contas monitoradas pelos EUA. Marco Rubio justifica o fundo como necessário para a "estabilização".
O futuro imediato reserva dois grandes desafios:
A Transição Política: Delcy Rodríguez governa sob um prazo de 90 dias, enquanto os EUA impõem um plano de três fases (estabilização, recuperação e transição), sem previsão de novos pleitos.
A Reforma Econômica: A Assembleia Nacional tenta flexibilizar a exploração de petróleo para capital privado. Ironicamente, a medida gera atrito na base chavista, que questiona por que tal modernização só ocorreu após a intervenção estrangeira.