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Em coletiva, William Bonner relembra ataques sofridos nas redes: “Me chamaram de fascista”
O crescimento da agressividade digital e em locais públicos o transformou em um alvo central dentro da polarização ideológica do país
06/02/2026 09h48
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos
William Bonner - Reprodução: Globo / Victor Pollak

A trajetória de William Bonner sofreu uma guinada drástica a partir de 2013. O crescimento da agressividade digital e em locais públicos o transformou em um alvo central dentro da polarização ideológica do país. Durante um encontro com jornalistas na sede paulista da Globo, o comunicador relembrou os ataques sofridos.

“Fui chamado de fascista, teve xingamentos com palavrões”, declarou.

Segundo ele, a pressão vinha de todas as direções.

“A história que antes era de um lado do espectro político começou a se manifestar também no outro”.

Bonner explicou que sua imagem se fundiu à da própria instituição e do telejornalismo nacional.

“A extrema esquerda e a extrema direita agiram com intolerância deliberada. A Globo é símbolo do jornalismo no Brasil. O Jornal Nacional é um símbolo do jornalismo da Globo e eu era o símbolo do Jornal Nacional. Então eu era um para-raio desse tipo de ação.”

Para mitigar confrontos, o âncora abriu mão da praticidade dos voos entre Rio e São Paulo.

“Evitei aviões em voos curtos porque eu não queria passar por constrangimento”, relembrou ele.

A cautela foi tamanha que, durante crises de saúde de seus pais, ele optou por percorrer quase mil quilômetros por semana ao volante.

“Meu pai doente, ao longo de um ano, eu fiz viagens semanais do Rio a São Paulo, vinha no sábado e ia embora no domingo. E depois, com a doença da minha mãe, que durou menos tempo, cinco meses”.

A perseguição incluiu a exposição criminosa de dados familiares e episódios de intimidação direta, o que restringiu severamente sua circulação. Atualmente, ele percebe uma atmosfera mais amena e voltou a frequentar aeroportos.

“O país passou por uma tentativa de golpe de Estado, pessoas envolvidas nesse processo estão sendo punidas, algumas já estão presas, e eu tenho a impressão de que os haters da extrema direita envolvidos nisso, que pudessem querer me hostilizar, andam mais tranquilos”.

Ele reflete que a mudança pode ser mais conjuntural do que afetiva:

“Eu não sei se eles me odeiam menos agora, eu acho que não é bem isso, mas acredito que há um clima no país que não favorece esse tipo a hostilidade manifestada publicamente por um integrante da extrema direita contra um jornalista, não daria uma boa repercussão”.

Sua saída da bancada do Jornal Nacional, em novembro de 2025, trouxe uma sensação metafórica inusitada. Segundo o comunicador, foi como se ele "tivesse falecido". A percepção veio através do tom das homenagens e análises sobre sua carreira.

“Porque quando alguém famoso morre, e a imprensa publica os perfis daquele morto, em geral pega um pouco mais leve, destacam os fatos mais positivos. Fiquei muito surpreso com o que publicaram ao meu respeito”.

Ele confidenciou à esposa o impacto dessa recepção:

"Eu disse para a minha mulher: ‘é como se eu tivesse morrido’. Gente que me criticava, era ácida nas notas, foi super generosa. Havia ali respeito. Um respeito que, muitas vezes, ao longo de muitos anos, eu não vi ninguém ter a preocupação de manifestar".

Agora, o contato com o público é marcado por afeto e gratidão, como ocorreu recentemente em Portugal.

“Ouvi ‘muito obrigado’. ‘O país deve a você’. Eu ouvi isso de pessoas muito simples e também de um ex-presidente de uma estatal que fumava alegremente um charuto numa rua de Lisboa”.

O jornalista, porém, divide os louros com seus pares:

“E adoro dizer para as pessoas: ‘olha, esse seu muito obrigado é simbolicamente para uma categoria profissional inteira, porque eu não fiz nada sozinho nem no JN, nem na Globo, nós somos muitos no Brasil brigando pela mesma causa, o respeito à Constituição e a preservação da democracia.”

Após um período de descanso por destinos como Paris e Nova York, Bonner recuperou o controle sobre sua rotina, que antes era consumida pela hiperconectividade.

“No meu dia, eu só não estava ligado na Globo e no Jornal Nacional nas horas que eu passava dormindo. E dormia cada vez menos. Nunca tive problema de sono, mas vinha dormindo 5 horas e meia, 6 horas. Eu estava exausto o tempo todo, estava saturado. E não é culpa do Jornal Nacional, a culpa é dos tempos da gente, que não consegue se afastar de um celular e ignorar uma mensagem”.

A dificuldade de concentração era um sinal claro de esgotamento.

“Eu não conseguia mais ler um capítulo de um livro por dia sem interromper para ficar vendo mensagem. Mas chega uma hora que a conta se apresenta".

A partir de 20 de fevereiro, Bonner assume um novo desafio no Globo Repórter, dividindo a tela com Sandra Annenberg. O novo formato permite uma imersão profunda, como ele mesmo defende e se satisfaz.