A homenagem carnavalesca que a Acadêmicos de Niterói prepara para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode se tornar uma confusão jurídica. Segundo analistas consultados pela Folha, o desfile tem o potencial de atrair sanções da Justiça Eleitoral, a depender da condução da festa no sambódromo.
Enquanto alguns especialistas acreditam que a letra do samba não possui elementos suficientes para caracterizar propaganda eleitoral precoce, outros alertam para passagens que flertam com o limite do que é permitido. O risco maior, contudo, seria a interpretação de abuso de poder político e econômico, o que poderia culminar em inelegibilidade ou na cassação de um eventual novo mandato em 2026.
A oposição já se mobilizou, acionando a Procuradoria-Geral da República e o Ministério Público Eleitoral. O argumento central é de que o tributo fere a igualdade entre possíveis candidatos.
Lula, que buscará a reeleição, será o tema da escola estreante no Grupo Especial do Rio. O enredo intitulado "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil" inclui elementos simbólicos fortes:
O coro "olê, olê, olá, Lula! Lula!";
O slogan "o amor venceu o medo";
A menção ao número do partido: "por ironia, 13 noites, 13 dias".
O financiamento da agremiação também está sob atenção. Parlamentares do partido Novo recorreram ao Tribunal de Contas da União (TCU) para tentar bloquear o desfile ou reaver o dinheiro público. Embora um parecer técnico tenha sugerido suspender os repasses, o ministro relator Aroldo Cedraz manteve o fluxo financeiro, mas aceitou a tramitação da denúncia.
Os questionamentos recaem sobre um montante de R$ 12 milhões da Embratur destinados à Liesa, que repassa R$ 1 milhão para cada escola do Grupo Especial.
Para detalhar as diferentes visões jurídicas sobre o desfile da Acadêmicos de Niterói, os especialistas consultados apresentam perspectivas que variam da conformidade administrativa ao alerta sobre possíveis sanções eleitorais.
Raquel C. Machado (UFC): Avalia a situação como de risco moderado. A professora destaca que a execução ao vivo do desfile é o ponto mais crítico, advertindo que "pode ser que frases mais apelativas terminem sendo ditas [na Sapucaí]. Isso por si só já traz um risco. As pessoas vão ter que se conter".
Fernandes Neto (Abradep): Considera o cenário preocupante. Em sua análise, o conteúdo do samba-enredo encontra-se no "limiar da legalidade", pontuando ainda que a utilização de recursos governamentais pode ser interpretada como um fator que gera desigualdade na disputa eleitoral.
Fernando Neisser (FGV): Classifica a situação como legal. O jurista sustenta que não há elementos que configurem infração, argumentando que inexistem evidências de que o próprio presidente tenha articulado ou solicitado a homenagem da agremiação.
Vitor R. Schirato (USP): Foca no aspecto administrativo do caso. Ele defende a regularidade do processo, afirmando que o repasse equitativo de verbas para todas as escolas de samba assegura o cumprimento do princípio da impessoalidade na gestão pública.
A Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) refutou qualquer irregularidade, afirmando que os valores são idênticos aos do ano passado e distribuídos de forma equânime. Em nota, destacou que "não houve qualquer ingerência na escolha do enredo" e que "a Secom-PR respeita a autonomia artística das escolas e entende que questionar o tema de um samba-enredo carece de base legal e pode refletir preconceito contra manifestações culturais".
A Embratur seguiu a mesma linha, reiterando que "não interfere na escolha de sambas-enredo, respeitando a autonomia artística e a liberdade de expressão das agremiações". A Acadêmicos de Niterói preferiu o silêncio diante dos questionamentos.