Quando anunciaram Virginia Fonseca como rainha de bateria da Acadêmicos do Grande Rio, o carnaval deixou de ser apenas uma festa popular. Virou trend, virou corte. A folia passou a disputar espaço com o algoritmo.
Neste ano, a escola de Duque de Caxias cruzou a avenida sob olhares atentos. E, quando o resultado veio — oitavo lugar — a torcida silenciou. Para uma agremiação acostumada a brigar pelo topo, foi um banho de água fria. O gosto foi amargo. E, inevitavelmente, o nome de Virginia entrou nas rodas de conversa.
Não apenas pela colocação, mas pela performance.
Rainha de bateria não é cargo decorativo. É resistência física, é entrega, é domínio do samba no pé. É liderança simbólica diante de uma comunidade inteira que se prepara o ano todo. No entanto, a imagem que mais viralizou foi a de uma rainha visivelmente cansada, tentando encontrar o compasso em meio à pressão.
O costeiro de 12 quilos — pesado demais para uma estreante sustentar — precisou ser retirado durante o percurso no sambódromo. O adereço a impediu de sambar com liberdade. E ali, diante de milhões, o brilho deu lugar à preocupação.
Carnaval é espetáculo, mas também suor e pertencimento. Quando a fantasia pesa mais do que a experiência, algo sai do eixo. Com a retirada do costeiro, ficou a sensação de que, em determinado momento, a escola orbitou mais em torno da celebridade do que do próprio enredo — como se a narrativa tivesse sido engolida pela personagem.
Mas a culpa, se é que há culpados, não é da influencer, e sim da agremiação, que a colocou como principal trunfo do carnaval carioca. Na Sapucaí, cada componente carrega a história da comunidade. Quando o foco se desloca demais para um único nome, a balança perde o equilíbrio. Visibilidade não substitui vivência. Fama não substitui fundamento.
O oitavo lugar deixa uma pergunta ecoando mais alto que qualquer bateria: até que ponto vale transformar tradição em estratégia de engajamento?
Entre sins e nãos, é certo afirmar que, na passarela do samba, o número de seguidores não impressiona. No carnaval, o único número que importa é a nota 10.
Fica para 2027!