Faria Lima amanhece como palco da maior operação contra o crime organizado no país

A operação mira 350 alvos envolvidos no domínio da cadeia produtiva da área de combustíveis, parte da qual foi capturada pelo PCC

28/08/2025 às 10h06
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos
Compartilhe:
A Receita Federal e órgãos parceiros deflagraram, nesta quinta-feira, 28 de agosto, a “Operação Carbono Oculto” - Reprodução: Receita Federal
A Receita Federal e órgãos parceiros deflagraram, nesta quinta-feira, 28 de agosto, a “Operação Carbono Oculto” - Reprodução: Receita Federal

Equipes da Polícia Federal, Polícia Militar, Promotores do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e agentes fiscais das Receitas Estadual e Federal tomaram a Avenida Faria Lima, o principal centro financeiro do país, na manhã desta quinta-feira (28). A operação, batizada de "Carbono Oculto", representa a maior ofensiva já realizada contra a infiltração do crime organizado na economia formal brasileira.

A ação mobilizou 1.400 agentes para cumprir 200 mandados de busca e apreensão contra 350 alvos em dez estados. O objetivo é desarticular um esquema que dominou toda a cadeia de combustíveis, parte dela cooptada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Somente na Faria Lima, 42 alvos — entre empresas, corretoras e fundos de investimentos — estão sendo investigados em cinco locais, incluindo edifícios de destaque na região.

De acordo com as autoridades, a principal empresa de pagamentos sob investigação, a BK Bank, movimentou R$ 17,7 bilhões em transações financeiras suspeitas. A Receita Federal estima que o esquema criminoso desviou R$ 1,4 bilhão em impostos federais. O Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos do Estado de São Paulo (CIRA/SP) solicitou o bloqueio de bens para reaver R$ 7.672.938.883,21 em tributos estaduais sonegados.

Múltiplas transgressões e conexões com o crime organizado

As investigações revelam uma série de delitos, como crimes contra a ordem econômica, adulteração de combustíveis, crimes ambientais, lavagem de dinheiro (inclusive do tráfico de drogas), fraude fiscal e estelionato.

Os acusados, segundo a polícia, teriam obtido o controle de parte da produção de etanol, gasolina e diesel. Isso foi possível através de uma aliança entre dois grupos empresariais e suas ligações com operadores suspeitos de lavar dinheiro para Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC. Além disso, os promotores do Gaeco afirmam que a organização montou uma complexa rede para esconder participações societárias, rendimentos e bens.

A Justiça ordenou o confisco de quatro usinas de álcool no estado, cinco gestoras de fundos de investimento, cinco redes de postos de gasolina com mais de 300 pontos de venda e 17 distribuidoras de combustíveis. Também são alvos da operação quatro transportadoras, dois terminais portuários, duas instituições de pagamentos, seis refinarias e formuladoras de combustível, além de bens de 21 pessoas e até uma rede de padarias.

Outro ponto crucial do plano do grupo era a importação ilegal de metanol pelo Porto de Paranaguá (PR). O produto não chegava aos destinatários originais das notas fiscais. Em vez disso, era desviado e transportado clandestinamente em uma frota própria de caminhões para adulterar a gasolina em postos e distribuidoras, gerando "lucros bilionários à organização".

A Faria Lima e as usinas de açúcar e álcool

Após dominar uma parcela do setor de combustíveis — que, segundo o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), representa 10% do PIB nacional, gera 1,6 milhão de empregos e arrecada R$ 130 bilhões em impostos anuais — os criminosos buscavam proteger seu patrimônio e maximizar os ganhos no mercado financeiro. É aqui que o centro financeiro se torna um ponto focal da operação.

Na avenida que concentra a elite do mercado financeiro, agentes federais e promotores vasculham escritórios onde operam 14 fundos imobiliários e 15 fundos de investimento, administrados por cinco empresas. Além dos alvos na Faria Lima, a força-tarefa investiga 22 outros na região, totalizando 21 endereços na capital e 32 em outras 18 cidades do interior paulista.

A investigação aponta para cinco grupos criminosos. O principal é formado pelos empresários Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Loco", e Mohamad Hussein Mourad, do antigo grupo Aster/Copape. Eles teriam se unido ao Grupo Refit (antiga Manguinhos), do empresário Ricardo Magro, ex-advogado do ex-deputado federal Eduardo Cunha.

As investigações da PF e do Gaeco indicam que os acusados expandiram suas atividades por toda a cadeia de produção e venda de combustíveis com dinheiro ilícito. Isso lhes permitiu aumentar exponencialmente seu poder econômico e político, financiando lobistas em Brasília. A reportagem ainda não conseguiu contato com a defesa dos investigados.

Formalmente, Beto Loco e Mourad são proprietários de poucas empresas. Uma delas é a TTI Bless Trading Comercio de Derivados de Petróleo, e outra, a G8Log Transportes, em Guarulhos, que gerencia uma frota de caminhões. Foi por meio dessas empresas que os promotores chegaram à nova fase do grupo: a aquisição de usinas sucroalcooleiras no interior de São Paulo.

Laços com a Manguinhos e outros grupos

Após serem alvos da Operação Cassiopeia em 2024, Mourad e Beto Loco teriam se esforçado para proteger seu patrimônio bilionário. Na época, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) revogou as licenças de suas principais empresas, a distribuidora Aster e a formuladora Copape. Mesmo assim, os promotores afirmam que os acusados continuaram operando no setor.

Um exemplo disso é que suas distribuidoras de combustíveis forneciam óleo para a maquinaria agrícola de usinas, que, por sua vez, distribuíam etanol para a rede de postos do grupo. Segundo os investigadores, a empresa carioca Rodopetro assumiu a posição da Aster, criando "camadas de ocultação" de patrimônio após ser absorvida pelo Grupo Manguinhos no segundo semestre de 2024. Nesse mesmo período, Mourad criou a Arka Distribuidora de Combustíveis e a TLOG Terminais Ltda, no Rio de Janeiro, para operar em conjunto com a Manguinhos.

Outras seis distribuidoras de combustível seriam usadas para conectar os dois grupos, todas ligadas a Mourad. As investigações mostram uma atuação coordenada entre empresas com sedes em Jardinópolis, Iguatemi e Guarulhos (SP), e em Senador Canedo (GO). Em Jardinópolis, por exemplo, Mourad teria se associado a outro empresário para adquirir a Rede Sol Fuel, próxima à Usina Carolo e a outras usinas da região de Catanduva.

As instalações da Rede Sol Fuel são compartilhadas, de acordo com os promotores, com a verdadeira sucessora da Aster: a Duvale Distribuidora de Petróleo e Álcool. Os investigadores afirmam que a integração da Duvale ao grupo de Mourad revela uma conexão perigosa. A empresa teria emitido procuração para o empresário Daniel Dias Lopes, condenado a nove anos de prisão por tráfico internacional de drogas. Lopes também estaria ligado à distribuidora Arka e manteria contato com os grupos Boxter e outros investigados na Operação "Rei do Crime", sobre a lavagem de dinheiro do PCC.

Promotores e agentes federais apontam que as distribuidoras ligadas ao grupo de Mourad possuem características semelhantes, como capital social idêntico e constituição em períodos próximos. A análise fiscal e financeira de seus sócios e diretores revela incongruências, qualificando-os como "laranjas" ou pessoas conectadas "ao crime organizado". A suspeita é que essas empresas formem um cartel por meio de suas relações com as usinas do grupo, tanto no fornecimento de diesel quanto na distribuição de etanol.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários