O que devemos esperar do possível primeiro encontro entre Lula e Trump na ONU após tarifaço?

Assembleia Geral da ONU de 2025 será primeiro grande palco internacional em que os presidentes poderão estar frente a frente, em meio à escalada da crise entre Brasil e Estados Unidos

22/09/2025 às 12h29
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos Fonte: Terra
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Presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva - Reprodução: Piroschka Van De Wouw/Pool/AFP/Getty Images via CNN Newsource / Marcelo Camargo/Agência Brasil
Presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva - Reprodução: Piroschka Van De Wouw/Pool/AFP/Getty Images via CNN Newsource / Marcelo Camargo/Agência Brasil

A Assembleia Geral da ONU de 2025, que tem início nesta semana em Nova York, é o primeiro palco de grande visibilidade onde os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump podem ficar cara a cara, em meio à escalada de tensões entre Brasil e Estados Unidos. O encontro, mesmo sem uma reunião bilateral confirmada, acontece enquanto Washington já implementa as tarifas de 50% sobre mercadorias brasileiras.

Tradicionalmente, o Brasil é o país que abre os discursos na sessão plenária do evento. Nos bastidores, pessoas próximas à comitiva brasileira relatam a existência de uma sala de espera para os líderes antes e após as falas, mas não há garantias de que eles se cruzarão.

Em uma entrevista à BBC News Brasil, Lula afirmou que não tem "problema pessoal com o presidente Donald Trump" e que, caso o encontre nos corredores da ONU, irá cumprimentá-lo. "Porque eu sou um cidadão civilizado. Eu converso com todo mundo, eu estendo a mão para todo mundo."

Em agosto, Celso Amorim, assessor especial da Presidência, havia dito à CNN que uma reunião formal não estava nos planos, mas ressaltou que "nada é imutável" se houver gestos que justifiquem um encontro.

A expectativa de que Lula e Trump se encontrassem em junho, na cúpula do G7 no Canadá, não se concretizou. O presidente americano saiu do evento antes do encerramento, alegando precisar se dedicar ao conflito no Irã, o que adiou qualquer aproximação.

A sequência de desavenças começou na primeira semana de julho, quando Trump classificou as acusações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal como uma "caça às bruxas". Poucos dias depois, em 9 de julho, ele anunciou a sobretaxa de 50% sobre importações brasileiras. No dia seguinte, Lula reagiu, chamando a medida de "chantagem inaceitável" e prometendo retaliar. Em 15 de julho, o governo brasileiro regulamentou a Lei de Reciprocidade, que estabelece mecanismos de resposta a sanções estrangeiras.

Na entrevista à BBC News Brasil, Lula afirmou que a melhor opção para "qualquer conflito" é "sentar em torno de uma mesa e negociar". "Se é do ponto de vista comercial, tem negociação, se é do ponto de vista econômico, tem negociação, tanto do ponto de vista de tributação, tem negociação. O que não tem negociação é a questão da soberania nacional", destacou Lula.

Em 1º de agosto, as tarifas norte-americanas entraram em vigor. Em 11 de setembro, a condenação de Bolsonaro a 27 anos de prisão pelo STF reacendeu a disputa: Trump criticou o veredito, anunciou restrições de vistos a ministros da Corte, e Lula respondeu com um artigo defendendo a democracia brasileira.

No texto, publicado no The New York Times, Lula se mostrou a favor de "um diálogo aberto e franco com o presidente dos Estados Unidos", mas criticou duramente as tarifas impostas por Washington. "O aumento tarifário imposto ao Brasil neste verão não é apenas equivocado, mas ilógico. Os Estados Unidos não têm déficit comercial com o nosso país, nem enfrentam tarifas elevadas aqui. Pelo contrário: acumulam um superávit de mais de US$ 400 bilhões nos últimos 15 anos."

Ele também rechaçou a ideia de perseguição política no Brasil, elogiando o papel do Judiciário. "Tenho orgulho do Supremo Tribunal Federal brasileiro por sua decisão histórica, que protegeu nossas instituições e o Estado democrático de direito. Não se tratou de uma 'caça às bruxas', mas de um julgamento conduzido de acordo com a Constituição de 1988."

Com a ONU como cenário, a presença dos dois líderes em Nova York será acompanhada de perto por diplomatas e observadores internacionais. Mais do que um eventual — e, segundo especialistas, improvável — aperto de mãos, o que se avalia é a disposição de Brasília e Washington para conter a escalada de atritos que, em menos de três meses, transformou divergências políticas em uma crise comercial aberta.

Diálogo improvável, segundo especialistas

Para Paulo Velasco, professor de política internacional da Uerj, as posturas firmes de Brasília e Washington dificultam qualquer tentativa de diálogo na Assembleia Geral da ONU. "O Brasil está defendendo sua soberania e repelindo qualquer forma de ingerência externa indevida, enquanto o governo Trump acredita estar agindo corretamente, considerando que o Brasil faz uma 'caça às bruxas', para repetir o termo usado por ele." Velasco ainda ressalta que Lula não se colocará em situações constrangedoras, como "alguns desafios que aconteceram com o Zelensky, por exemplo, em fevereiro na Casa Branca".

Naquela ocasião, o encontro entre os presidentes dos Estados Unidos e da Ucrânia, que visava à assinatura de um acordo sobre exploração de recursos minerais, terminou em uma discussão menos amigável do que o esperado. Trump acusou Zelensky de "jogar com a Terceira Guerra Mundial" e de "não ser muito grato" pelo apoio americano, enquanto o líder ucraniano tentava interromper o americano. A tensão resultou no cancelamento da coletiva de imprensa conjunta, e Zelensky deixou a Casa Branca sem o acordo assinado.

"Então eu acho que o Lula não se permitirá passar — pela experiência internacional que ele tem — por uma cena constrangedora ao lado do Trump. Particularmente estou bastante cético, e não acho que a gente vai ver uma aproximação na semana que vem entre os dois, talvez sequer um aperto de mãos entre eles."

Matias Spektor, professor de Relações Internacionais da FGV-SP, complementa que qualquer contato entre os líderes será meramente formal. "Eles estarão na sala de espera antes de subir ao pódio da Assembleia Geral e podem nem sequer se falar. Não haverá tempo nem equipes preparadas para negociações substantivas. O máximo que se poderá observar são sinais sutis, como a linguagem corporal ou um cumprimento rápido."

Sobre os discursos, Spektor avalia que o foco será voltado para o público interno. "O púlpito da Assembleia Geral é usado para falar com os eleitores, não com outros países. Lula deve centrar o discurso na soberania, no livre comércio e nas instituições internacionais, com tom crítico ao que o Trump vem fazendo. Já Trump provavelmente falará sobre o radicalismo da esquerda e mirando sua base eleitoral nos EUA."

Ele conclui lembrando o caráter político da Assembleia: "A Assembleia Geral não é um local para negociar acordos ou alianças, mas define o tom político global e indica para onde se movimenta o pensamento internacional."

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