Economista “Guru da desigualdade” defende taxação dos super-ricos no Brasil: “Reformas sempre geram resistência”

Em entrevista à BBC News Brasil, economista Branko Milanovic diz não ter dúvida 'de que a reforma [do Imposto de Renda] reduziria a desigualdade no Brasil'

26/09/2025 às 11h40
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos Fonte: BBC News Brasil
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Branko Milanovic - Reprodução: Getty Images / BBC News Brasil
Branko Milanovic - Reprodução: Getty Images / BBC News Brasil

O Brasil figura entre as nações da América Latina que mais reduziram a disparidade social nas últimas duas décadas, período em que a região se destacou globalmente por conseguir atenuar a diferença de rendimentos, conforme atesta o economista sérvio-americano Branko Milanovic, uma das maiores autoridades mundiais em iniquidade econômica.

O especialista sugere que a proposta em debate no Congresso Nacional para tributar grandes fortunas pode diminuir ainda mais a desigualdade no país, embora seja crucial analisar o risco de essa alteração regulatória provocar uma fuga de capital para o exterior.

"Não há qualquer dúvida de que a reforma [do Imposto de Renda] reduziria a desigualdade", afirma Milanovic em entrevista à BBC News Brasil. "O argumento, eu suponho, do outro lado, é que é preciso considerar se isso realmente teria um efeito positivo na economia — o que eu acho que teria —, ou se os ricos esconderiam seu dinheiro, se eles colocariam o dinheiro no exterior e coisas assim", pondera.

O professor da City University of New York (CUNY), que serviu como economista-chefe do departamento de pesquisa do Banco Mundial por cerca de vinte anos, minimiza esse risco: "Muitas vezes isso foi usado como uma ameaça, mas na realidade isso não se concretizou porque essas pessoas ainda ganham mais dinheiro no Brasil do que colocando o dinheiro em outro lugar".

Detalhes da Proposta de Reestruturação do Imposto de Renda

A reestruturação do Imposto de Renda visa ampliar a faixa de não-tributação para rendimentos de até R$ 5 mil, uma promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O projeto ainda contempla um abatimento parcial para receitas situadas entre R$ 5 mil e R$ 7,35 mil.

Para compensar a perda de arrecadação causada pelo aumento da isenção, o governo federal propõe:

  • Tributação progressiva de até 10% para indivíduos com ganhos superiores a R$ 600 mil por ano, sendo que a alíquota máxima seria aplicada a rendas anuais a partir de R$ 1,2 milhão.

  • Cobrança na fonte de 10% sobre lucros e dividendos distribuídos por empresas aos seus acionistas acima de R$ 50 mil mensais, incluindo aqueles remetidos para o exterior.

A urgência do projeto foi aprovada, o que permitiria sua votação direta no plenário da Câmara. Contudo, o processo foi suspenso para que os deputados pudessem priorizar a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que buscava "blindar" parlamentares de ações judiciais criminais – medida que, posteriormente, foi derrubada pelo Senado.

A Visão Histórica da Desigualdade

Em sua obra recém-lançada no Brasil – Visões da desigualdade: Da Revolução Francesa até o fim da Guerra Fria (Todavia, 2025) – Branko Milanovic explora as razões pelas quais a disparidade social foi relegada a segundo plano nos estudos econômicos durante os anos da Guerra Fria.

O economista faz um percurso pela história do pensamento ocidental sobre a iniquidade, analisando os escritos de seis autores clássicos: François Quesnay, Adam Smith, David Ricardo, Karl Marx, Vilfredo Pareto e Simon Kuznets. Para cada pensador, ele levanta uma questão hipotética: "O que seu trabalho revela sobre a distribuição de renda como ela existe em sua época, e como e por que ela pode mudar?".

Milanovic ressalta a relevância desse exame histórico: "Primeiro, é importante porque são autores canônicos. Em segundo lugar, porque vemos como a visão da desigualdade está sendo moldada pelas condições da época de cada um deles."

Ele conclui que a análise é crucial "para nós agora para que percebamos que realmente esquecemos completamente dois aspectos importantes da desigualdade. Um é a estrutura de classes, e o segundo é o surgimento da elite", considera o economista.

Transformações Globais e a Ascensão da Ásia

À BBC News Brasil, Milanovic também antecipou aspectos de seu próximo livro, com lançamento nos Estados Unidos previsto para novembro: The Great Global Transformation: National Market Liberalism in a Multipolar World ("A Grande Transformação Global: Liberalismo de Mercado Nacional em um Mundo Multipolar", a ser publicado no Brasil pela editora Todavia em 2026).

Nesta obra, o economista examina como a ascensão asiática nas últimas décadas — notadamente da China, mas também de nações como Índia, Indonésia e Vietnã — reconfigurou o topo da pirâmide de riqueza global. Esse fenômeno teria gerado uma insatisfação crescente nas classes médias de países desenvolvidos, culminando na eleição de Donald Trump nos EUA e em diversas instabilidades políticas na Europa.

O especialista ainda explica sua classificação de Trump como um "neoliberal otimista" e, simultaneamente, um mercantilista em sua política externa.

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